Foto Colunista

POR Manoel Veloso

Melhor coisa

Colunistas / 01.10.15

Eu queria ser até menos espalhafatoso nesse desabafo, mas meu ego e meu orgulho são bem maiores do que todo o desafeto que um dia você fez questão de demonstrar. Então, logo aqui faço um adendo ao título: a “melhor coisa” que me refiro aqui é a que você jamais teve. E essa coisa sou eu – não, não estou falando aos berros.

E vou demonstrar por A+B que eu nunca fui seu. Vou precisar rebobinar nossa fita inteira, rever cada enquadramento e cena que protagonizamos, mas vai ser por uma boa causa. O que nossa história significa pra você, sinceramente, não faço a mínima ideia. Falarei aqui por mim mesmo.

Lembra quando nos esbarramos naquela festa da faculdade? Aposto que não – você sempre reclamava da precisão da minha memória alegando ser, na verdade, amargura. A essa altura deve tá coçando a cabeça tentando lembrar da situação. Adianto logo: foi onde a gente se conheceu. Lembro sua roupa, seu perfume, seu jeito desengonçado de dançar. Revendo a cena não consigo ver meu rosto, mas consigo imaginar meu olhar desencontrado com meu sorriso. Olhava fixamente pra ti e gargalhava com seu descompasso de pernas e braços. Balbuciava um desinteresse, mas meus olhos negavam tudo. Você, desatento como sempre, não notou nada. Sua amiga, ao contrário, não demorou muito pra falar comigo. Fez o melhor trabalho que já vi – penso até em contratá-la para minha futura start-up. Porque vender um produto como ela vendeu e com tão pouco discurso é um dom.

Devidamente apresentados, papo encaminhado. E nos entregamos em nossos braços, que viraram abraços, beijos, sorrisos, carinhos nos seus cachos, massagem na minha nuca. Daí pra frente foram cinemas acompanhados da sua análise perfeita – e eu, todo ouvidos. Jantares e cozidos – e eu, provador escalado das suas aventuras de fogão. Estudos em “corujões” – e eu, entre xícaras de café e questões de concurso, fazia companhia. Suas propostas de viagem – e eu cruzava dados e fazia um roteiro perfeito. Lembra que não contávamos com aquela chuva no Rio e você ficou sem saber o que fazer porque era impossível curtir o Posto 9 em Ipanema? Mas será que você lembra que fui eu quem fez questão de ler aquela revista chata sobre viajantes que falava (exatamente) sobre turismo com tempo ruim? Aposto que não lembra, não.

Agora você deve perguntar indignado como que eu não era seu se fazia tudo isso – sempre tentando me jogar pra baixo e tentar ficar por cima nos relacionamentos (meus amigos fizeram de um tudo pra me mostrar que você só me humilhava quando dava seus shows em público). Eu estava lá pela gente, sabe? Não era por você, exclusivamente. Era por um plural, que você enchia a boca pra dizer que era um singular. “Ah, o sentimento dele é maior que o meu”. Lembra? Eu lembro muito bem de ter ouvido isso por acaso, num descuido seu. Engoli, como muitos outros sapos nesse nosso tempo. Carreguei sozinho nossa história, sim. E isso demonstra como fui a melhor coisa que já aconteceu na sua vida, também.

Nos piores momentos eu estive lá também, sabe. Quando todos que te amavam te deram as costas, eu te dei um ombro. Quando você preferiu trancar a faculdade e tentar ser free-lancer, eu disse pra você seguir seus sonhos. Quando você quebrou o pé insistindo naquela partida de futebol que eu disse que seria furada, eu que te levei ao hospital – assim como daquela vez que eu disse para trocar o whisky por uma água com gás porque tava demais. Não, eu não era a voz da razão ou tampouco o salvador da pátria de porra nenhuma, não (sim, eu sei que você balbuciou isso). Eu gostava de ti e me importava contigo! E isso basta pra tudo isso acontecer!

Eu estava entregue. Estava mesmo, eu assumo. Mas eu nunca me permiti ignorar minhas vontades. Eu coloquei você ao lado de todo meu rol de prioridades. Dizem que amor de verdade é aquele em que fazemos tudo pela outra pessoa, mesmo quando isso for de encontro ao que queremos pra gente. Eu concordo. Concordo plenamente. Amar cegamente é isso, mas não se pode esquecer que ninguém ama sozinho. Tem que estar junto pra amar – nem que esse estar junto não seja recíproco como a gente deseja. Então, aqui, eu faço questão de atualizar essa explicação para amor: amar é colocar num mesmo pedestal você e o outro, em prol de um “nós”, em prol de ambos – ainda que o melhor para ambos seja deixar de ser um “nós”. Estávamos em pé de igualdade. Eu não era mandado, eu não era subjulgado. Eu tinha vontade, eu tinha escolhas. E minha vontade era estar contigo, era fazer por nós. Percebeu, né? Falo no passado já. E consigo falar abertamente. Pode parecer ódio, mas, na verdade, é só indiferença: finalmente fui capaz de dar um passo pra fora de tudo isso. Fora da tua órbita. Fora desse seu círculo em que pessoas são tratadas como coisas.

Eu não devia provar nada, só virar as costas e ir embora, assim como você fez. Mas, agora, provo pra você pra poder provar pra mim mesmo. Pra poder olhar no espelho e só encontrar meu reflexo, meu sorriso, minha paz, minha beleza. Sem dor, sem olheiras, sem lágrimas, sem você. E perceber que, acima de tudo, eu sou melhor. E, definitivamente, eu sou a melhor coisa que aconteceu na sua vida. E que você jamais teve, porque, antes de tudo, eu sou MEU. Só e somente MEU.

_____________

Manoel Veloso, mas ainda atrás de um plural – são muitas vidas dentro de um só. Dizem ter 21, mas pode ser 32 ou 60. Estudante de Direito da UFRJ, mas gosta mesmo é de Literatura. Sonha em estrelar um “Velozes e Furiosos”. Ousado, mas não o suficiente para declarar-se escritor.

_____________________________________________________________

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do Site BH. Possibilitamos que o leitor conheça opiniões diversificadas sobre os assuntos em pauta nas mídias sociais. Sempre iremos expor visões diferentes para que o leitor se questione, questione o mundo ao seu redor e, principalmente, corra do senso comum. Quer ver o seu texto por aqui? Mande para redacaositebh@gmail.com

Seja o primeiro a curtir.

Uma resposta para “Melhor coisa”

  1. Poderia ser eu a escrever o texto
    As palavras do meu coração
    Muito bom

Deixe uma resposta

*

ARQUIVOS

BH NO INSTAGRAM

FOLLOW @BARBARAHELLEN

BH NO FACEBOOK

www.000webhost.com