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POR Andressa Valadares

O mal do sabe-tudo

Colunistas / 30.09.15

(Trilha sonora: Metamorfose Ambulante – Raul Seixas)

Vivemos uma época em que, se assumimos o nosso desconhecimento a respeito de algo, logo somos taxados de ignorantes. No entanto, o irônico é que, os mesmos que são taxativos ao apontar a ignorância do outro são, em sua maioria, aqueles que habitam a bolha ilusória que abriga os detentores do conhecimento pleno.

Para quê lotarmos os bancos das Academias se temos na internet um verdadeiro celeiro de cientistas políticos, sociólogos, historiadores, magistrados, psicólogos e até mesmo nutricionistas, todos pós-graduados no curso de como destilar ao seu bel prazer uma enxurrada de opiniões com ares de verdade absoluta?

Eu honestamente não sei em que momento dessa vida terrena a “ilusão” do saber tudo sobre tudo se tornou régua niveladora do potencial intelectual de nós, humanos. Quando, na verdade, justamente o não saber sobre todas as coisas é o que constitui um dos pilares essenciais do ser HUMANO.

Apiedo-me ao imaginar quanta energia não é gasta por pessoas que se debruçam fervorosamente sobre o Google em busca do comentário perfeito sobre a conjuntura política do país, a Teoria das Cordas, relação PutinxObama e como o capitalismo e o imperialismo americano se tornaram o mal do século.

Somos diariamente bombardeados por uma quantidade enorme de informações e isso acabou criando uma cultura de que devemos SEMPRE ter um compilado de opiniões sobre tudo. Do contrário, estaremos assinando o nosso atestado de burrice. Prefiro carregar a leveza do não saber do que a mortalha da pseudointelectualidade. Deve ser realmente um suplício manter toda essa pose.

Não tenho tantos anos de experiência na vida adulta, mas se tem uma coisa que aprendi desde cedo é que assumir a nossa ignorância é o primeiro passo para que possamos fazer a travessia em busca do conhecimento pleno. Nada melhor do que uma aprendizagem tranquila para nos despir da velha máquina de opiniões formadas sobre tudo. Assumir o não saber é, sobretudo, um ato de humildade.

Então, meus queridos, não tentem vestir uma pele que não lhe serve só para mostrar ao mundo como você domina a aba pesquisar dos sites de busca. Senão, você corre o risco de cair na humilhante armadilha quando lhe perguntarem quantos livros de Sócrates você já leu e, claro, para não parecer ignorante, logo responderá ‘vários’. Mal sabendo que, na verdade, Sócrates nunca escreveu uma linha sequer.

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Andressa Valadares é jornalista e socióloga de botequim. Acredita no delírio cultural em massa de que a aparente posição do sol, relacionada com as constelações na hora do seu nascimento, de alguma forma afeta sua personalidade.

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