Foto Colunista

POR Bárbara Hellen

O suicídio e a eutanásia

Colunistas / 16.09.15

Engraçado como um título pode nos enganar. Comecei a ler o livro “Como eu era antes de você”, de Jojo Moyes, achando que era uma simples história de amor. Mas ele me trouxe reflexões bem mais profundas. A história de Lou, que vai trabalhar na casa de um tetraplégico, Will, aborda temas que guardamos na gaveta: o suicídio e a eutanásia.

Will era um esportista, bem vivido, rico e cheio de possibilidades… Até que sofre um acidente e se torna dependente de tudo e de todos – até para as suas necessidades mais básicas, como se alimentar. Lou é contratada com função de acompanhar Will durante o dia. O que Lou descobre depois é que Will deu aos seus familiares um prazo de seis meses até que ele vá a uma instituição que pratica eutanásia em seus pacientes. Nesses seis meses, Lou tem a obrigação de mostrar a Will que ainda vale a pena viver.

A história é uma ficção, mas se aproxima da realidade de muitos que por dores constantes e uma doença incurável, desejam morrer. Desejam, do fundo do coração, morrer. E são impedidos por leis e familiares.

Quando você começa a estudar o suicídio a partir das religiões cristãs, elas explicam não cabe à pessoa tirar a sua própria vida – sendo essa uma decisão exclusiva a Deus. A doutrina Espírita explica que a incredulidade é um dos maiores incentivadores ao suicídio e que ao cometer esse ato, a pessoa não está escapando do sofrimento e sim somente o prologando, pois todas as tribulações que temos aqui nessa vida são provas que devemos suportar para sermos recompensados no futuro. A doutrina ainda explica que quem ajuda uma pessoa a cometer suicídio estará pecando assim como um homicida – ou seja, na eutanásia são pecadores também as pessoas envolvidas no ato, como familiares e médicos.

Na verdade, não pensamos muito sobre esse assunto, já perceberam? É um tabu tão grande quanto o sexo e, assim como ele, é um ato cada vez mais comum em nossa sociedade: segundo dados mais recentes da Organização Mundial de Saúde, entre 2000 e 2012, houve um aumento de 10,4% na quantidade de mortes e o Brasil é oitavo país em número de suicídios, com 11.821 mortes registradas em 2012. Paralelo a isso, no Brasil, instigar, auxiliar ou induzir alguém a cometer suicídio e a pratica da eutanásia são crimes.

O ato de cometer suicídio ou optar por morrer com a eutanásia ultrapassa o nosso instinto básico de autopreservação. Por isso, para chegar ao ponto de não querer mais tentar viver, é necessário mais do que apenas sofrimento. Alguns sofrem de doenças, como a depressão, que mudam a perspectiva da pessoa. Mas talvez todos tenham uma coisa em comum: quando a pessoa tenta tirar a sua própria vida, ela já não consegue enxergar qualquer luz no fim do túnel.

Vi recentemente na internet o Projeto Ponto e Vírgula, no qual pessoas estão tatuando um ponto e vírgula como forma de trazer esperanças aqueles que lutam contra depressão, suicídio, vício e auto ferimento. A explicação seria que “o ponto e vírgula é usado quando um autor poderia ter escolhido terminar sua sentença, mas não quis. O autor é você e a sentença é a sua vida.” Projetos como esses podem ser a luz no fim do túnel… Compartilhar experiências entre quem já viveu e quem está vivendo é trazer esperança e soluções.

No caso do livro, entretanto, Will teve que abdicar de tudo que amava: esporte, trabalho, namorada… Não conseguia levantar da sua própria cama nem que fosse para ficar sentado, sempre precisava da ajuda de alguém. Sentia dores enormes que não passavam com medicamentos. Todos os dias. Você consegue entender isso? Eu não. E é essa reflexão que Jojo Moyes propõem no livro: até que ponto nós, pessoas saudáveis e ainda que medianamente felizes, estamos aptos a decidir pelo o outro se é certo ou não que ele deixe de viver? Até que ponto nós, crentes em um Deus, podemos impor e decidir por aqueles que não compartilham da mesma crença?

Para mim, não é simples entender a falta de vontade de viver. Por mais que tenhamos nossas insatisfações pessoais que vem e vão, sempre há outro dia e novas possibilidades. Como creio que estamos aqui com um propósito, é mais simples para mim ter paciência em relação às adversidades. Mas é necessário pensar sobre certa parcela da população – como aqueles que passam 24hrs sentindo dores extremas – e a possibilidade de decidir sobre por ou não fim ao seu próprio sofrimento. Como isso poderia ser feito, eu realmente não sei. Mas só sei que uma frase do livro ficou martelando na minha cabeça: “Clark, você ainda não entendeu, não é? A decisão não é sua”. Talvez a decisão não seja nossa.

____________

Bárbara Hellen é jornalista. Troca qualquer coisa um bom livro ou um sábado na praia. Tagarela e cheia das opiniões, adora conversar sobre política e religião… Ou sobre qualquer outra coisa. Ama Fernando Pessoa e cai no clichê ao crer que sim, tudo vale a pena se a alma não é pequena.

_____________________________________________________________

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do Site BH. Possibilitamos que o leitor conheça opiniões diversificadas sobre os assuntos em pauta nas mídias sociais. Sempre iremos expor visões diferentes para que o leitor se questione, questione o mundo ao seu redor e, principalmente, corra do senso comum. Quer ver o seu texto por aqui? Mande para redacaositebh@gmail.com

Seja o primeiro a curtir.

Deixe uma resposta

*

ARQUIVOS

BH NO INSTAGRAM

FOLLOW @BARBARAHELLEN

BH NO FACEBOOK

www.000webhost.com