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POR Manoel Veloso

Adeus

Colunistas / 11.09.15

“Adeus.”

E assim nossos dedos se desencontraram. E me afastei de ti. De nós. Sem olhar pra trás. Só eu vou saber a dor que foi ter que seguir sem poder ter dado um último sorriso, ou um último encontro com teus olhos incrivelmente risonhos. Digo isso porque, ainda que nós dois tivéssemos construindo um sentimento juntos (mesmo conscientes das despedidas), eu sentia que a culpa desse momento sempre seria minha. E de fato é: eu que estou saindo, eu que estou tendo que colocar um ponto final onde eu descobri que não há necessidade sequer de vírgulas.

Foi tudo absurdamente rápido. E aqui vou me valer sempre desses ultra-hiper-mega-superlativos. Porque foi exagerado. Arrebatador. De uma vez. Uma lapada só. Tu chegaste, e eu também. E foi nesse encontro repentino, de dois inteiros que não procuravam metades, mas outros inteiros querendo ser mais que um inteiro. Nessa confusão mesmo fomos inteiros. Somos um inteiro – não quero falar disso no passado. Insistimos em ser um só porque, ainda que eu não goste da tua fruta favorita e tu não dances meu reggae, tudo parece fluir tão bem. Assustadoramente bem – a música cafona que grita no rádio quando nos olhamos; aquele abraço intenso acompanhado pelo silêncio que diz tudo; o cafuné no momento certo, na hora certa.

Só me pergunto por que esse “nós” não acompanhou a tempestividade certeira e precisa desses teus cafunés. Ainda que tenhamos nosso próprio tempo e gozemos dessa tenra juventude pulsante (bem no ritmo de “Tempo Perdido”), o restante do mundo parece não acompanhar. Nossos mundos à parte não nos acompanham. De todos os planos que um dia pensei, definitivamente, tu não estavas incluso. De A a Z, não havia uma lacuna pra te incluir – da mesma forma que não acredito que eu estava ali na tua planilha do Excel. Uma vez eu li em algum lugar que as melhores coisas da vida acontecem exatamente nas lacunas dos planejamentos, na surdina, quando menos esperamos. São aquelas coisas que sacodem tudo, desmoronam de dentro pra fora e tornam até o mais simples arfar um arrepio indelével. Tudo se torna sinestésico demais. A pele demora a entender o que se passa do lado de lá; e cá dentro menos ainda se compreende. Perde-se o fio da meada. Tudo isso por te encontrar. Tudo isso por aquelas primeiras palavras curiosamente tímidas, de rubor poético. Caramba, tu mexeste comigo de uma maneira que é indescritível.

Não sei se foi a carência que fez com que corrêssemos, urgentes por atenção e presença. Se o fato de termos um termo (com direito a muita cacofonia, sonoplastia e todas as “ias” que pudermos colocar em nossos momentos) fez com que tudo teu fosse mais vívido, e tudo meu fosse mais colorido. Não sei. Só sei que aconteceu. De fato, aconteceu. Quando achávamos que estávamos a 20km/h, numa marcha bem lenta, estávamos bem mais à frente, com uma velocidade que nem sei se delta-esse e delta-tê podem definir. E, como em todas as placas e avisos que recebemos nesse caminho, a alta velocidade faz com que qualquer choque seja desastroso. Já sabíamos: esse correr com vento no rosto seria amargoso mais à frente. Eu teria que partir, você teria que ficar. Em vez de colidirmos mais à frente, a estrada simplesmente desapareceria.

E desapareceu. A estrada deixou de existir naquele exato momento em que nossos dedos se separaram, eu te dei as costas e fui. E fui. Toda força motriz que me empurrava para frente encontrou as marcas no chão da frenagem brusca que tivemos que dar para não cair no precipício deixado pela estrada faltante. Que tivemos que dar, não. Que você deu. Por isso não olhei pra trás e não te fitei no fundo dos olhos – porque eu caí no precipício. Eu mergulhei rumo ao nada. Eu, que desde o começo fiz meus sentimentos andarem de mãos dadas com o pragmatismo da realidade que se aproximava, fui incapaz de apertar o freio com você. Por quê? Não sei. Na verdade, talvez eu saiba e teime em dizer que não.

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Manoel Veloso, mas ainda atrás de um plural – são muitas vidas dentro de um só. Dizem ter 21, mas pode ser 32 ou 60. Estudante de Direito da UFRJ, mas gosta mesmo é de Literatura. Sonha em estrelar um “Velozes e Furiosos”. Ousado, mas não o suficiente para declarar-se escritor.

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2 respostas para “Adeus”

  1. Como cantava Adriana Calcanhoto: “Aconteceu quando a gente não esperava, aconteceu sem um sino pra tocar, aconteceu diferente das histórias que os romances e a memória têm costume de contar, aconteceu sem que o chão tivesse estrelas, aconteceu sem um raio de luar, o nosso amor foi chegando de mansinho, se espalhou devagarinho, foi ficando até ficar. Aconteceu sem que o mundo agradecesse, sem que rosas florescessem, sem um canto de louvor. Aconteceu sem que houvesse nenhum drama, só o tempo fez a cama, como em todo grande amor”.

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