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POR Roberta Gomes

O direito de escolher como ser mãe

Colunas / 10.09.15

Engravidar e ter filhos sempre parecia uma etapa muito distante na minha vida. Até que naturalmente senti a vontade, decidimos (eu e o marido) que era o momento, mas não havia parado para refletir em todas as situações e decisões que isso impõe a uma mulher. Nunca pensei que fosse ouvir tanto de tanta gente. Hoje, com minha filha de um ano e quatro meses, tenho consciência das minhas escolhas e defendo, como em qualquer outro assunto, a liberdade da mulher em definir quando, como, com quem, de quem e se nunca quer ser mãe.

A minha Elena nasceu em meio à efervescência dos debates sobre parto e amamentação. Percebi logo que engravidei: “vai ter parto normal né?!”, “olha, faz tudo direitinho para que consigas amamentar exclusivamente até os seis meses”, entre outros conselhos e imposições. Confesso que no início eu estava completamente embevecida pelo movimento das mães perfeitas e quase mergulhei no radicalismo de certos discursos em relação ao parto natural – em casa! – e ainda cheguei a pensar “para que comprar mamadeira, se eu vou amamentar no peito sempre?”. Bom, consegui colocar minha racionalidade acima desse bombardeio de informações somada à emotividade de todas as mudanças que eu estava passando – físicas e emocionais.

Li muitos livros, reportagens, assisti a vídeos e fui buscar informações de todos os lados. Meu médico, Leonardo Carvalho, foi essencial nesse processo. Em nenhum momento me impôs uma cesárea ou não descartou o normal.

Mas no fim das contas, minha gravidez, parto, pós-parto e amamentação foram contrários a toda idealização de maternidade, principalmente àquela construída no mundo perfeito das mães das mídias e redes sociais.

Engordei 22kg ao longo da gestação, uma façanha inimaginável para mim, para os médicos e minha família. Até hoje só perdi 13kg – consequência muito bem resolvida na minha cabeça.

Escolhi a cesárea porque quis assegurar a presença de alguns familiares que moram fora, como a minha tia médica que acompanhou meu parto (o marido não teve coragem); porque eu já estava muito cansada e inchada nas últimas semanas; porque Elena não encaixou até a 40ª semana e eu já não aguentava mais. O parto foi lindo e os meus encontros com minha filha logo que ela saiu da minha barriga, e depois, já no quarto da maternidade todo preparado para sua chegada, foram maravilhosos.

O pós-parto não foi lá uma tranquilidade, mas nada que não pudesse ter acontecido também no parto normal. Senti algumas dores porque falei quando não devia (efeito da anestesia); chorei muito e fiquei extremamente nervosa como se quisesse, por um segundo, voltar atrás e não ter engravidado (é gente, o centro do mundo passa a ser outro). Senti uma falta imensa da minha liberdade. Queria trabalhar, sair, dormir, namorar. E esses sentimentos contraditórios duraram um bom tempo, sempre se alternando com dádiva e felicidade de ter um bebê seu nos braços.

Porém, foi a amamentação a maior dificuldade que tive que enfrentar. Como eu tinha construído a ideia de amamentar livremente no peito e me sentia maravilhosa alimentando minha bebê, a realidade foi um pouco mais cruel. Eu preparei meus seios para a amamentação durante toda a gravidez e Elena fez a pega muito bem logo de primeira. Passados os dois primeiros dias, que são mais difíceis, comecei a produzir muito, muito leite. Enquanto Elena mamava bem, eu ficava muito cansada e me estressava porque eram horas e horas amamentando. Com o emocional instável, acabei tendo a primeira mastite, que foi contornada, mas com um mês e pouco, tive um tipo de fungo nos mamilos, com uma coceira insuportável e que atrapalhava a amamentação de Elena. Tentei de tudo: banco de leite para ajudar a recuperar, remédios e remédios que não a impedissem de amamentar, não usava nada além de camisetas de algodão, quase não saía de casa e tudo foi virando um tormento. Tive a segunda mastite, fui na dermatologista, joguei as últimas cartas e cansei. Conversei com o pediatra, com o obstetra e com meu marido: interrompi a amamentação. No mesmo dia que decidi, tomei o remédio para secar o leite. Foi aí que passei me sentir uma mãe completa, feliz com minha filha 100% do tempo.

Não posso dizer que foi uma decisão fácil. Eu adorava amamentar e queria os seis meses exclusivos no peito insistentemente. Achava que seria mais mãe por isso. Ledo engano. Minha relação com Elena só melhorou, só ficou mais intensa.

Eu tive escolha. Eu usufrui da liberdade e apoio familiar para tomar a decisão que eu achava melhor. Busquei informações, conversei com os médicos e decidi.

Foi nesse momento que eu entendi que ser mãe é muito mais que parir naturalmente e amamentar no peito. E foi quando eu me empoderei como mulher e somando muito do que li, passei a defender a nossa liberdade de escolha como mãe, decidindo o que é melhor para si e para seu bebê, sem ter que passar pela inquisição e cobrança externa do “ela mama no peito? Não?! Que pena!”; “não esperaste pra ter normal? é muito melhor. Em poucas horas você já está andando”.

Impor parto normal e amamentação exclusiva vai muito além de uma MP, Lei ou recomendação. Ele alcança o direito de escolha da mulher, o direito de ter informação transparente, mas, principalmente, ter o direito de a mãe que seu filho precisa. Hoje eu sei, ao receber um olhar, um beijo, abraço e ouvir o doce “ma-mãe”, que eu sou a mãe que Elena ama, quer e precisa, mesmo tomando mamadeira desde os três meses e tendo nascido através de um corte na minha barriga.

E sonho para ela que, quando chegar o seu momento de ser mãe ou decidir não ser, que a sociedade esteja mais tolerante e apontando menos para o outro.

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Roberta Gomes, 30 anos, jornalista, casada com um jornalista, tem um enteada de 15 anos, Isadora, e é mãe da Elena, de 1 ano e 4 meses. É assessora de imprensa no TJMA e especialista em comunicação digital. Diariamente tentando conciliar a paixão pelo trabalho, pela família e por si mesma.

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