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POR Manoel Veloso

Sem Título

Colunistas / 03.09.15

Hoje eu acordei e você não estava lá. Mais uma vez. A minha cama já foi muito estreita. Eu conseguia colocar os pés pra fora. Afinal, era meu espaço, meu universo. E de mais ninguém. Hoje, ela é grande demais, fria demais, estranha demais sem você. Droga, o que você fez comigo?

Tateio os dedos pelo seu lado da cama e a única coisa que eu encontro é meu celular plugado no carregador. Foi minha única companhia, por mais um dia. Uma tentativa ridícula de tentar preencher esse hemisfério inteiro ao meu lado. Fiquei aguardando uma resposta, um sinal, um toque, uma chamada, um e-mail. Qualquer coisa que pudesse me aproximar dos seus olhos estreitos enquanto você sorri sem motivo, encarando minha teimosia. Ou seus resmungos, suas dores de cabeça, seus trabalhos incompletos que me faziam dormir com a luz acesa.

Nem consigo mais lembrar se nos conhecemos aqui ou acolá. Se foi sua amiga que nos apresentou ou se foi algum meu que forjou um encontro aleatório. Não sei mais quais amigos são seus e quais são os meus. Nem como fazíamos para pagar a conta no japonês de domingo – dividir por dois ou fazer piada com quem come mais sushi frito que as peças cruas. A verdade é que não lembro como era minha vida antes de você. Ou não quero lembrar.

Afinal, quem gosta de almoçar sozinho? Ir ao cinema? Quantas vezes fiz algumas coisas no escritório às pressas para poder sair dez minutos antes só para fazer companhia no seu self-service preferido. E outras tantas eu saia tarde depois das reuniões e você estava lá embaixo com dois cafés e, de novo, com os olhos estreitos enquanto sorria para minhas olheiras.

Você sorria demais, sabia? Eu reparava nisso. Mas eu nunca entendi se era um sorriso sozinho ou se você ria da minha cara de apaixonado confuso. Principalmente quando você deitava em meu colo enquanto estávamos no carro – eu fazia cafuné, fitava o outro lado da rua pelo para-brisa com o olhar vazio e mergulhava em meus pensamentos. Pensamentos nem sempre bons. Porque, por mais que você fosse minha calma, era também a causa de um turbilhão de coisas na minha cabeça. Você capitaneava a calmaria e, ao mesmo tempo, causava todo aquele reboliço dentro de mim. Como me disse uma amiga uma vez: poucos têm a sorte de viver alguma coisa com alguém que questione nossas certezas e faça repensar tudo. Você sabe muito bem que eu penso (e penso demais). Com você, então, eu quadrupliquei essa mania insuportável de antecipar dores, entregar-me às ansiedades e tangenciar medos infrutíferos.

Também não lembro quando começamos a brigar. Até porque você não falava! Você embatia em silêncio; com um olhar desviado; com as figurinhas no lugar dos textos das mensagens; com as ligações pela metade; com conversas curtas depois do expediente. Droga, você sabia como eu odiava tudo isso. Eu era grosso? Era sim, confesso. Não é novidade a minha falta de tato e incapacidade de lidar com as minhas próprias emoções. Você me ajudou muito com isso, você sabe. Eu já conseguia falar (quase que) abertamente sobre tudo que se passava aqui dentro. Aí você foi embora. Agora recebo ligação da minha mãe e, quando ela diz que me ama, eu mal consigo sorrir no meu lado da linha, numa tentativa fraca e irrisória de dizer “eu também”. Voltei à estaca zero. Estou me perdendo de novo. Na verdade, estou completamente perdido.

Continuo encarando seu lado da cama. Ela já foi só minha; depois virou nossa e você insistiu em me devolver. Lembra quando deitamos aqui e tentamos criar um título para nossa história? Para nossa comédia romântica a la Woody Allen; para nosso drama Nicholas Sparks; para nossas cantigas de amor trovadorescas (você adorava meu eu lírico português apaixonado e ria da minha tentativa circense de imitar o sotaque lusitano); para nossas encenações de diálogos impossíveis. Éramos poetas apaixonados. Éramos roteiristas vorazes. Éramos diretores de arte. Éramos artistas. Éramos. Não consigo aceitar esse tempo verbal. Não aceito voltar a ser somente “eu”. Nossos verbos eram defectivos, lembra? Era impossível conjugar no singular, porque, desde o comecinho (que não sei mais quando foi) falávamos no plural. No nosso plural. Agora faltam palavras, faltam sorrisos, falta você. Não tem mais plural, não tem mais sorriso, não tem mais história. O roteiro está incompleto porque sozinho eu não consigo escrever. Se juntos não decidimos qual seria o n-o-s-s-o nome, quem sou eu para decidir? Vai ficar assim mesmo: sem título, você colocando o ponto final e eu completando as reticências.

E com essas mesmas reticências encerro meu monólogo – não porque não tenho o que dizer. Tenho muita coisa engasgada, mas estas se perdem em meio aos soluços e lágrimas intermitentes. Assim mesmo, sem mais nem menos. Sem explicações. Sem grandes reflexões. Sem…

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Manoel Veloso, mas ainda atrás de um plural – são muitas vidas dentro de um só. Dizem ter 21, mas pode ser 32 ou 60. Estudante de Direito da UFRJ, mas gosta mesmo é de Literatura. Sonha em estrelar um “Velozes e Furiosos”. Ousado, mas não o suficiente para declarar-se escritor.

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Uma resposta para “Sem Título”

  1. No futuro próximo eles podem voltar ? Eles podem colocar um título nesse texto ?E o que representa essas reticência ?

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