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POR Bárbara Hellen

Sobre cativar e ser cativado

Colunistas / 25.08.15

Após assistir ao filme O Pequeno Príncipe, fiquei pensando sobre aquela famosa frase: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. Pensar sobre ser cativado e cativar em tempo de desapego e no qual buscamos ser livres, em todos os aspectos, é ir contra a maré.

“Tu não és para mim senão uma pessoa inteiramente igual a cem mil outras pessoas. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens necessidade de mim. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás pra mim o único no mundo. E eu serei para ti a única no mundo…” disse a Raposa ao Pequeno Príncipe.

Como criar laços com alguém quando há outras pessoas mais disponíveis, descomplicadas e interessantes? Como ter a necessidade de alguém específico quando as pessoas são hoje descartáveis, quando se troca o parceiro como se troca de roupa? Talvez, por isso, alguns não tenham gostado muito do filme. Não seria o livro (e assim o filme) um devaneio literário para os poucos sentimentalistas poéticos ainda existentes?

Cativar é antes de tudo conquistar, encantar. A raposa resume: cativar é criar laços. Criamos laços com o outro quando nos fazemos presentes, somos prestativos, quando damos ao outro aquilo que ele precisa para se sentir completo, para se sentir amado. Quando completamos o incompleto. Quando, enfim, tocamos o coração do outro. Mas isso é bem subjetivo, porque cada um se sente amado de uma maneira tão única… Sem ser cativada, aquela pessoa passa a ser apenas mais uma. Uma igual a cem mil outras.

E isso me fez pensar: quando deixamos de nos deixar cativar pelo outro? Quando criamos esse muro entre o outro e eu, essa barreira construída pelo medo que me torna… forte?

“Forte” porque criar laços, se deixar cativar, pode também ser uma forma de aprisionamento. Quando permitimos que o outro entre no nosso mundo e faça parte da nossa vida, estamos permitindo que o outro ocupe um espaço em nosso coração e torne-se uma necessidade. Deixar o outro virar uma necessidade pode ser complicação. Dá medo e vai de encontro a tudo que somos ensinados hoje em dia. Ter o outro como único poderia significar tornar-se escravo, sem perceber. E nascemos para ser livres. Temos tanto a viver. E por termos tanto a viver, não é que deixamos de viver?

Por medo, escolhemos relacionamentos superficiais. Deixamos de conhecer manias, não perguntamos muito e trocamos nossas respostas mais longas por outras mais curtas. Não queremos mais saber profundamente sobre o outro, sobre suas manias, preferências… Não conheceremos o cheiro do seu perfume, não nos lembraremos do outro quando uma música tocar na rádio. Não conheceremos bem o outro, porque como disse a raposa no livro, para conhecer o outro é preciso se deixar cativar.

Deixar-se cativar, em contrapartida, é arriscar-se. Talvez alguns bons laços serão criados e como resultado teremos boas lembranças. Entretanto, há a possibilidade de se machucar. Por isso tantos muros hoje nos protegem – dos outros, mas também das nossas próprias responsabilidades.

Sem concluir, mas já concluindo, acho que a melhor ponderação que ganhei depois de alguns caracteres com espaçamento simples foi também bem simples. Seja responsável pelas pessoas que você cativou e seja cuidadoso na hora de se deixar cativar, pois nem sempre a pessoa cumprirá sua responsabilidade. Porém, lembre-se: a prudência nunca será a melhor característica na hora de vivenciar aquilo que é cativar.

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Bárbara Hellen é jornalista. Troca qualquer coisa um bom livro ou um sábado na praia. Tagarela e cheia das opiniões, adora conversar sobre política e religião… Ou sobre qualquer outra coisa. Ama Fernando Pessoa e cai no clichê ao crer que sim, tudo vale a pena se a alma não é pequena.

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2 respostas para “Sobre cativar e ser cativado”

  1. E que coincidência este texto, hein?! Falei anteontem sobre essa responsabilidade para nossa pequena… Cativar é uma responsabilidade porque as pessoas não são descartáveis… E, em última análise, a velha máxima do “não fazer ao outro o que não queres que vos façam” sempre é um bom termômetro!

  2. Parabéns Babu.Seus textos estão cada vez melhores.

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