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POR Manoel Veloso

Poltrona de avião

Colunistas / 20.08.15

“Bem vindos ao voo número…”

Aqui estou eu. Mais uma vez de mudança. Engraçado como a palavra “mudança” ganhou significados diferentes com o passar dos anos. A primeira grande mudança foi aos quatro anos, quando deixei a terra natal e os familiares para ganhar a vida na Ilha – magnética e atraente em oportunidades que os meandros dos rios Parnaíba e Poty não ofereciam. Foi dolorido? Não me recordo. Só sei que o primeiro aniversário longe dos primos, tios e avós foi solitário. Sobrou muito bolo, não tinha Tupperware para encher. Comemos bolo no café, lanche e jantar por uns dias – eu e meus pais.

Então vieram outras mudanças, aquelas que vêm com a idade. A adolescência (temida adolescência!). Foram amores, desamores, descobertas, vergonhas, surpresas, espinhas, choros desnecessários, sorrisos escandalosos. E fotos. Muitas fotos. Maioria delas para se envergonhar, mas, hoje, marejam os olhos (não de saudade porque não faz tanto tempo assim, mas porque as curvas bruscas não eram tão bruscas quanto realmente imaginava). Ingenuidade a minha: a imortalidade da juventude correrá sempre em minhas veias!

“Caros passageiros, aqui quem fala é o comandante…”

Mais memórias. Mais mudanças. Nem sempre fui aberto a elas. Taurino por excelência, segurança e estabilidade são essenciais. Mas descobri a falsa quietude: nada melhor que chegar num ponto e perceber que ele não é mais suficiente. Cheguei aqui? Posso chegar mais adiante!

Relembro o vestibular, o ciclo de amizades que se renovou, o ambiente libertador da Universidade que se abriu. Mudaram-se os copos: antes de vidro e cheios de coquetéis de frutas bem doces; agora, copos de plástico e vinho barato. As conversas são outras. Os caminhos a fazer são outros. Mudei a marcha, agora por conta própria. Dirigir transformou a lógica das caronas, dos passeios, das “baladas”. Essas últimas, então, mudaram muito! Antes casa dos amigos, regadas com o que achávamos dentro de casa; agora são bares temáticos, pubs alternativos, botecos e botequins. O vexame, que era entre amigos, tornou-se público. “Melhor se portar bem, beber menos, falar mais baixo”. Quer saber? NÃO. Ninguém paga minhas contas (não que eu consigo pagar tudo, mas o que importa é que não devo satisfação pra ninguém). Essa foi a grande mudança: o nariz é meu, as rédeas são minhas (a grande descoberta). Bebo o que quiser; ando com quem quiser; beijo quem quiser. Que transformação! O adolescente acanhado e tímido, agora, tem voz. Grossa e firme. E ressoa. Eu dono de mim. E refém de mim mesmo (aprendi pouco depois).

Então veio a mudança “física”. Abri mão de casa, comida, mordomia e colo de mãe para ir para a cidade grande. Sozinho. Outra cidade, outro Estado, quilômetros e quilômetros de distância. Cada vez mais dono de mim, com o peso da independência em meus ombros. As contas chegam endereçadas em meu nome e não são pagas sozinhas. A poeira “brota” do chão e continuará crescendo se nada for feito. Saio, volto e encontro a cama do mesmo jeito que deixei pela manhã. Comida? Tempero de mãe existe e faz muita (muita) falta. Macarrão instantâneo mata fome, mas não sacia. Roupa passada e impecável é um luxo inimaginável. Veja só: as expressões também mudaram! Sotaque é uma coisa que pega. E pega fácil. Às vezes insisto em negar a fala cantada e imito panela de pressão nos plurais. “Caô”, acho que “escangalhei” meu sotaque. Uma mistura danada!

O menino que virou rapaz que achou que tinha virado homem, enfim, tornou-se homem. Lato sensu: aqui quero dizer que a maturidade, que vinha em doses homeopáticas, foi tomada em dose única, com absorção rápida, urgente. Se demorasse muito para fazer efeito, sufocaria e eu sucumbiria. Mas sou forte. Descobri-me, acima de tudo, um Forte.

“Tripulação, portas em automático!”

Vejo meu reflexo pela pequena janela do avião. Ganhei mais pelos no rosto, alguns quilos foram e voltaram. As bochechas redondas e rosadas deram lugar a alguns ângulos. Os olhos da mãe permanecem, a sobrancelha do pai continua ali atestando o parentesco. Mas sei que não sou mais o mesmo. Atravesso meu reflexo e olho a paisagem. Lembro-me de quando cheguei aqui e, agora, despeço-me (mesmo que por tempo determinado). Penso na minha mala. Como os voos me ensinaram a diminuir a quantidade e aproveitar melhor o guarda-roupa. Algumas cuecas, uns pares de meias e mudas de roupa contadas nos dedos das mãos podem garantir vários dias foram de casa. Não preciso mais passar em farmácias para pesar a mala antes de chegar ao aeroporto. Penso na minha casa que deixei. Eu realmente a deixei? Talvez um pedaço dela. Uma extensão da minha verdadeira casa. Minha casa sou eu. Onde eu for, estarei com ela. Mas… será que tirei tudo da tomada mesmo? As janelas realmente ficaram fechadas? Desapeguei da ideia. Está tudo certo.

“Passageiros, a partir desse momento todos os equipamentos eletrônicos devem ser desligados…”

Antes de desligar, mais uma olhada no reflexo. Dessa vez, um sorriso. Encorajador, mas tímido, de cantinho. Estou ansioso. Não sei o que vem amanhã ou depois. Nem o que me espera em meu novo destino. Só sei que, quando eu sentar de novo nessa poltrona e olhar por essa mesma janela, que eu adicione mais alguns parágrafos aqui. Que eu agradeça pelas mudanças. Estas serão sempre bem-vindas.

“Senhor, por favor, desligue seu aparelho…”

E desligo.

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Manoel Veloso, mas ainda atrás de um plural – são muitas vidas dentro de um só. Dizem ter 21, mas pode ser 32 ou 60. Estudante de Direito da UFRJ, mas gosta mesmo é de Literatura. Sonha em estrelar um “Velozes e Furiosos”. Ousado, mas não o suficiente para declarar-se escritor.

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3 respostas para “Poltrona de avião”

  1. Manoel, o seu texto é excelente. Vá colecionando o que tem escrito. O livro não tardará a sair. Boa sorte nessa nova empreitada além mar, a qual, não tenho dúvida, será, pra variar, profícua. Um dia, quando a sua mudança para o Rio estava entre o iminente e o jamais, contei ao Veloso Pai o quanto sair de casa me fizera mais apto e independente. Cheguei a dizer que pouca coisa os pais fazem de proveitoso a um filho quanto empurrá-los para fora de casa (no bom sentido, claro). Fico feliz em saber que o meu vaticínio, também no seu caso, fora acertado. E agora, podendo “melar o bico” na intimidade de Camões e Fernando Pessoa, aí é que o escritor fica pronto. Avante!!

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