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POR Helen Garcia Claro

Leva dois minutos para entender

Colunas / 17.08.15

 

Maria é cearense, tem três filhas e é biofarmacêutica de formação. Na sexta-feira, sete de agosto, fez nove anos que seu nome é reconhecido em todo território brasileiro. Eu explico: Maria da Penha foi uma vítima emblemática de violência doméstica.

Em 1983 ela sofreu duas tentativas de assassinato de seu então marido, o professor Marco Antonio Heredia Viveros. Na primeira vez, ele tentou matá-la com um tiro, simulando um assalto, atirando em sua espinha. Não conseguiu, mas depois disso, Maria teve que viver para sempre em uma cadeira de rodas. Ela não sabia que seu marido tinha sido o autor do disparo, porém quatro meses depois, sem cerimônia, ele a derrubou da cadeira de rodas e a eletrocutou em um chuveiro danificado. Maria sobreviveu novamente: foi socorrida por outra mulher, sua empregada.

Digo que este caso é emblemático porque, segundo o Mapa da Violência de 2012, do Instituto Sangari, 68,8% dos casos de feminicídio no Brasil aconteceram dentro de casa: mais assustador é pensar que, dentro dessa porcentagem, 65% dos agressores eram os parceiros ou ex-parceiros das mulheres assassinadas. Duas em cada três pessoas atendidas no SUS, vítimas de violência doméstica e/ou sexual são mulheres; 51,6% dessas mulheres serão agredidas novamente, ou seja, serão registradas como reincidentes.

Nossa sociedade culpabiliza a vítima das agressões que sofre em diversos aspectos: se seu short é curto, teoricamente está dando carta verde para qualquer homem poder olhar para suas pernas como bem entender. Se está na rua à noite, “está pedindo”. Se está bêbada, “não se dá valor” e também merece ser estuprada: se reclama disso tudo, está se vitimando. Se a mulher apanha e volta para o marido, ela merece. Ora, se ela volta é porque “gosta de apanhar”.

“Nem todas as mulheres gostam de apanhar. Só as normais. As neuróticas reagem” (Nelson Rodrigues)

Gostaria que Nelson Rodrigues soubesse que nenhuma mulher gosta de apanhar. E aqui não cabem brincadeiras, piadas ou humor. Existem mulheres pobres demais para separação, machucadas demais para serem independentes e dependentes demais para dar um basta às agressões. A Secretaria de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça afirma que 80% das mulheres agredidas não desejam que os autores sejam punidos. 9% acredita que mereceram a violência que sofreram. Esses tristes números revelam algo facilmente explicável e esperado: a melhor arma de um agressor é criar a dependência emocional e/ou financeira à mulher.

Aqui entra o tema do texto: feminismo.

Há algo de agridoce no feminismo: estar entre mulheres que entendem as agressões e o verdadeiro fado que é ser mulher no Brasil. Porque existe uma palavra linda para isso tudo, que é sororidade: estar entre irmãs e sentir-se respeitada. Doce. As necessidades que obrigam o feminismo a existir são a parte ácida.

O empoderamento das mulheres – cada vez mais visível em nosso país – é um grande “não” a tudo isso. O ativismo é importante e busca o que a legislação já deveria garantir: respeito à vida das mulheres. O feminismo precisa ser acessível às mulheres pobres e marginalizadas. O feminismo precisa subir o morro. O feminismo precisa estar no Facebook e nas ruas. Já foi mais do que comprovado pela história da nossa sociedade que as leis têm de vir de dentro: mulheres pensando políticas públicas para mulheres.

Ainda restou alguma dúvida da necessidade do feminismo? Bem, volto ao título do texto: para você que leu este texto em dois minutos, saiba que pelo menos cinco mulheres foram espancadas no Brasil¹. Daqui mais dois minutos, uma mulher será estuprada².

¹ Fonte: (FPA/SESC 2010). Disponível aqui.

² Fonte: 8° Anuário Nacional de Segurança Pública. Disponível aqui.

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Helen Garcia Claro é de humanas e de gatos. Estuda Letras/Grego na USP e trabalha no Museu Paulista (sabe, o do Ipiranga?). Seu guilty pleasure: Bob Esponja – que ela não acha ser guilty at all. É feminista, óbvio.

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Uma resposta para “Leva dois minutos para entender”

  1. Caralho Hellen, vc é foda e ágil hahhaha.
    Vou deixar o link pronto pra quem precisar de uma explicação rápida. <3

    Pat

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