Foto Colunista

POR Manoel Veloso

Manda Nudes

Colunistas / 13.08.15

Em tempos líquidos (a la Baumman) de relacionamentos just in time, catálogos de pessoas em forma de aplicativos para celular e reprodução em massa dos contatos de agenda telefônica da família Tinder (quem nunca), o sexo virtual é uma realidade. Há muito já se falava sobre troca de mensagens eróticas. Foram-se as cartas entre amantes, o telessexo e os bate-papos (como aquela cena cômica em “Closer: perto demais”). Agora, em tempos de WhatsApp, celulares com câmeras potentes e uma sobreposição do universo íntimo com a vida pública, autopornografia é a crista da onda.

Os relacionamentos just in time são aqueles que ocorrem na velocidade necessária para a satisfação da demanda. Precisa de uma companhia? Alguém pode ser seu companheiro. Só por hoje. Por um fim de semana. Talvez por alguns dias. Depende do que você procura. O que importa é que a vida está corrida e, por isso, não existe mais o roteiro básico dos encontros aleatórios até a amizade, que vira um interesse, que vira um clima, que vira um primeiro beijo, que viram encontros, que viram mais outros beijos, que viram outros encontros… e por aí vai.  Todo esse roteiro pode ser substituído por algumas mensagens. Tudo isso pode ser feito on-line. Não faço aqui um juízo de valor: sempre existirão prós e contras, dois lados da mesma moeda. Há quem realmente se satisfaça com “o que curte”, “onde você vai” ou “faz o que da vida”. Mas também há quem prefira um sorvete, alguns palmos de distância e uma troca de olhares antes de qualquer coisa. Há demanda. Há como supri-la.

Em meio aos barulhos insuportáveis dos celulares, há uma pedra do toque. E aqui o toque é essencial. Como fica a sexualidade no mundo dos bits? Como fora dito, temos uma convergência (pra não dizer “completa mistura”) entre o público e o privado. A intimidade, agora, é posta à mesa. O assunto do almoço de família pode ser facilmente compartilhado nas “paredes virtuais” de quase todo mundo em poucos cliques. Assim, o interesse pelo sexo também é publicizado e suprido com a mesma facilidade. Ora, a companhia que consegui para uma caipirinha pode, também, ser boa de cama. Pode até não ser, mas, por hora, está ótimo. Porém, antes de estar entre quatro paredes, por que não satisfazer logo a curiosidade e saber o que vou encarar? Eis, então, que surge o “manda nudes”.

É normal ter curiosidade sobre quem se deseja. As curvas sinuosas do corpo, aquele sinal charmoso próximo do umbigo e as cavidades… tudo isso desperta o voo das borboletas no estômago e o suor nas mãos. Causa aquela ansiedade e desejo. E, em um universo em que a necessidade não anda tantos metros assim à frente da satisfação, tem-se dado uma resposta bem convincente. E, em contrapartida, incrementado a autoestima de alguns que, com a exposição dos corpos, recebem elogios e mensagens calientes. Expliquei, portanto, o que é o ato de mandar nudes: é a troca de fotos íntimas por chat. É uma “masturbação virtual” que imita o sexo casual, mas sem aquele constrangimento da vontade de ir embora depois de gozar (ao menos não existe o constrangimento cara-a-cara).

Então: os aplicativos indicam pessoas próximas, as redes sociais mostram mais do que só nossas fotos de perfil e aquilo que considerávamos íntimo está sendo compartilhado com milhares e milhares de pessoas. Na internet podemos estar cercados de pessoas, com muitos olhos sobre nossas vidas. Estamos expostos. E, pela primeira vez, estamos pelados. Entretanto, a pedra do toque não é, necessariamente, tocada. Falta a pele com a pele. Falta sentir o suor. Deixamos à mostra nossos membros, enchemos nosso álbum de fotos alheias e gozamos. Mas gozamos sozinhos. Estamos sozinhos. O contato íntimo não pode ser substituído por uma foto. O gozo, quando é compartilhado, pode ser muito melhor. E, de fato, o é.

A autossabotagem também é válida no universo das nudes: não se tem controle do que é verdadeiro. Mentimos sobre quem somos e o que sentimos. A foto pode não ser nossa. O fetiche pode ser sustentado só para fazer o outro acreditar que você está se mordendo de desejo. Aquele amor de WhatsApp não anda, nem vai para trás. Aquele rolo não rola nem desenrola. E negamos a chance de viver alguma coisa com alguém. Nem que seja só por uma noite. Nem que seja só por um drink. Nem que seja só por um sorvete. E permanecemos trancafiados em nossos celulares, acreditando em companhias de chat e orgasmos virtuais.

A sexualidade sempre foi um assunto delicado, apesar da simplicidade do desejo. “Eu sinto, eu quero”. E isso basta. Deveria bastar. Trocas fotos íntimas, despertar o desejo no outro é divertido. É engraçado. Eu sinto. Eu quero. Mas não pode deixar que isso seja o suficiente. Descobrir o outro é um caminho muito difícil, tortuoso, sinuoso. E gostoso. Deixemos que os momentos se tornem íntimos. Que as conversas sejam igualmente atraentes quanto os megapixels de uma foto. Mas permitamos que tudo seja feito com reciprocidade, e não com discursos prontos, mensagens falsamente quentes e

fotos inexpressivas. Manda nudes. Mensagens apimentadas também valem, mas manda acompanhada de realidade e presença. Manda corpo inteiro, mas manda de verdade.

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Manoel Veloso, mas ainda atrás de um plural – são muitas vidas dentro de um só. Dizem ter 21, mas pode ser 32 ou 60. Estudante de Direito da UFRJ, mas gosta mesmo é de Literatura. Sonha em estrelar um “Velozes e Furiosos”. Ousado, mas não o suficiente para declarar-se escritor.

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3 respostas para “Manda Nudes”

  1. Esse é o resultado da junção poética e realista. Excelente!

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