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POR Andressa Valadares

O que não dá para apagar

Colunistas / 12.08.15

(Trilha sonora: Everybody’s Gotta Learn Sometimes – Beck)

O que seria de nós se não fossem todas as experiências bem ou mal sucedidas que nos acompanham durante toda a nossa jornada no plano terreno? Quanto mais tentamos apagar a razão de nosso sofrimento, menos êxito se tem nessa empreitada. É preciso atravessar, viver todos os estágios e lembrar que, quando estamos no “fundo do poço”, a única saída é subir em direção à luz.

Digo isso porque dia desses assisti pela milésima vez ao filme Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind), uma obra prima do existencialismo amoroso – se é que isso existe.

O filme conta a história de Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet), que viveram todos os estágios de um relacionamento, até chegarem ao mais temido, aquele que tentamos com todas as forças evitar, mas que sempre vem. Após vivenciar uma desilusão amorosa com Clementine, Joel decide submeter-se a um tratamento experimental – tratamento este a que Clementine ironicamente já havia se submetido –, por meio do qual seriam retiradas de sua memória todas as lembranças relacionadas a ela.

Todo mundo um dia já foi Joel. Todo mundo alguma vez na vida teve uma Clementine. Ficção à parte, estamos sempre tentando apagar os algozes do nosso sofrimento. Pode não ser por meio de um experimento científico, mas nos livrando de símbolos que um dia foram o cerne daquela relação. Souvenirs frutos do que hoje não há mais.

A gente só esquece que tem certas coisas que não dá para apagar. Não imediatamente. Viver é rasgar-se e remendar-se, já nos disse sabiamente Guimarães Rosa. Arrisco-me a dizer que um dos propósitos da vida está na nossa capacidade de restabelecimento. Mais do que simplesmente virar a página, precisamos tê-la lido por inteiro.

Somos o que somos graças as nossas lembranças. E a vida é isso: a arte dos encontros e desencontros. Depois de toda a lágrima e angústia, quase sempre estamos prontos para não cairmos nas mesmas armadilhas. Precisamos aprender a escalar sempre que o nosso morro desmorona.

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Andressa Valadares é jornalista e socióloga de botequim. Acredita no delírio cultural em massa de que a aparente posição do sol, relacionada com as constelações na hora do seu nascimento, de alguma forma afeta sua personalidade.

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2 respostas para “O que não dá para apagar”

  1. Parafraseando Clarice “Se não fossem as minhas malas cheias de memórias ou aquela história que faz mais de um ano. Não fossem os danos não seria eu.”

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