Foto Colunista

POR Márcio Sallem

Sufocado por gritos de panelas

Colunas / 10.08.15

Quando a Bárbara me propôs escrever um texto sobre por que o impeachment de Dilma Roussef seria uma solução injusta para a situação que vive o Brasil, talvez ela esperasse uma resposta animada de quem adora uma boa discussão, sobretudo, de política. Mas este não é meu estado de espírito. Estou sufocado por gritos de panelas violentamente espancadas e latidos de cães raivosos que mal consigo escutar minha própria voz, quiçá defender uma Presidente eleita democraticamente. Aliás, sequer posso afirmar que o impeachment não é, de fato, a melhor solução para as múltiplas crises que enfrentamos atualmente. Ou talvez, este texto venha em boa hora para reencontrar o caminho da ideologia. Vamos descobrir isto juntos.

Inflação, juros altos, aumento do dólar e do desemprego, a situação econômica brasileira não está fácil e foi o Governo quem nos pôs nesta enrascada. A indignação é compreensível: Dilma prometeu o que não podia prometer e engoliu em seco quando o Ministro da Fazenda Joaquim Levy mostrou-lhe que o buraco econômico era mais fundo do que pensava. Pra piorar, em vez de cortar gastos públicos dispensáveis, Dilma preferiu pescar no rio em que não há mais peixes ao cobrar a conta da incompetência da gestão passado do povo brasileiro. Tudo errado.

Mas o que a maioria dos indignados teima em esquecer é que o Brasil enfrentou situação pior durante a gestão de FHC, liderança do partido que hoje considerado como a solução para os problemas. Concordo que não dá para defender o sujo com o mal lavado e aceitar de braços cruzados a postura intransigente do Governo atual, o que não equivale a exigir impeachment, e sim cobrar mudanças “na própria carne”, como gostam de afirmar os colegas neoliberais. E quem garante que a saída da Presidente atenuaria as medidas econômicas e não as acentuaria?

Com um mercado especulativo imprevisível, estou seguro de que medidas drásticas reforçariam a crise de confiança que o Brasil vive externamente. Aos olhos estrangeiros, isto desmoralizaria a jovem democracia brasileira, rasgaria o véu da instabilidade política e deixaria o jogo em aberto para mudanças indesejadas, como a adoção do parlamentarismo – o sonho de Eduardo Cunha – um novo golpe militar – o sonho de Jair Bolsonaro – ou o surgimento da República Teocrática Brasileira – o sonho de Marcos Feliciano.

Essa crise também afeta a credibilidade das instituições públicas, e não há brasileiro que acredite mais na probidade com tanta corrupção, o menor dos fatores na aritmética da crise, mas o que provoca a maior indignação popular. O esquerdista se defenderá do indefensável afirmando que nunca se investigou como se está fazendo agora e que o PT não é o inventor da corrupção – ambas afirmações estão corretas -; o direitista, porém, bradará “Fora PT!”, xingará a Presidente como se isto resolvesse algo e ignorará que, dos protagonistas da política, somente Dilma não foi citada no Petrolão, diferentemente de Aécio Neves, Eduardo Cunha e Renan Calheiros. Evidente que se Dilma não sabia, deveria saber, mas não vi exigirem a saída do Presidente da Câmara e do Senado nos protestos. Só da Presidente, que não é blindada pela imprensa. Aliás, a Veja, cuja credibilidade despensa mais rápido que a Bolsa de Valores, repercutiu a denúncia contra Eduardo Cunha em uma capa-tablóide, dando tratamento brincalhão e satírico que jamais concederia caso o acusado fosse o homem apelidado de Brahma.

Todos esses males citados podem ser vencidos com paciência, trabalho e resiliência. As crises política e institucional, não, justamente com as quais o brasileiro menos se preocupa, embora sejam as que mais os afetem em médio prazo. Recuperar a governabilidade e a harmonia entre os Poderes (Executivo e Legislativo, sobretudo) exigiriam: ou a saída imediata de Dilma e/ou Eduardo Cunha, ou um pacto utópico em prol do país. A situação é mais urgente do que se imagina: com a desculpa de trabalhar em prol do Brasil, o Congresso preparou um campo minado pautado na disputa de egos, interesses particulares, vaidades e vendetas. Para que ajudar o Brasil quando destruí-lo provocaria a implosão definitiva do PT? Uma atitude que remete a dos soviéticos durante a segunda guerra mundial: para vencer de frio e fome o exército nazista, aqueles sacrificavam e esterelizavam as próprias vilas, destruindo partes de si para salvar o restante.

Então, quem está errado: a Presidente intransigente que afastou os aliados e isolou-se em discursos atrapalhados, apesar de não questionarmos sua retidão e lealdade à Constituição e às leis, ou a falta de bom senso de todo o restante: nós, povo, o Congresso e a imprensa em geral? A resposta é óbvia, mas, respondendo a pergunta original, não é justa. Por equivaler à eutanásia democrática, o impeachment traria um alívio momentâneo, porém um senso de vazio posterior: não de ausência do PT – parte vibraria até -, e sim de ordem política. Não seria a vitória que a Oposição deseja nem tampouco a que o Brasil precisa.

______________

Márcio Sallem é mestre em ciência da computação, bacharel em direito, Auditor-Fiscal da Receita Federal, crítico de cinema e leitor desde a época em que não havia iPhones e redes sociais, adora escrever sobre invariavelmente tudo: política, economia, artes e fofocas. _____________________________________________________________

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do Site BH. Possibilitamos que o leitor conheça opiniões diversificadas sobre os assuntos em pauta nas mídias sociais. Sempre iremos expor visões diferentes para que o leitor se questione, questione o mundo ao seu redor e, principalmente, corra do senso comum. Quer ver o seu texto por aqui? Mande para redacaositebh@gmail.com

Seja o primeiro a curtir.

4 respostas para “Sufocado por gritos de panelas”

  1. Análise muito sóbria da situação crítica que vivemos e do apego a solucoes imediatistas. Adorei a semana politica site BH!

  2. Adorei o texto, um único detalhe que deixou a desejar foi o significado do impeachment e quando ele é cabível. Impeachment não é uma escolha que pode ser feita por um plebiscito ou manifestação. Fora isso, excelente texto.

  3. Márcio, embora não concorde com muitos dos argumentos de quem defende o governo, concordo no ponto que o impeachment em nada nos beneficiaria, muito pelo contrário… Gostei muito do teu texto, principalmente pq percebi um amadurecimento de opinião só possível nas pessoas que, como tu, tem racionalidade e altivez para analisar e reavaliar suas posições, mantendo o que acha correto é transigindo no que entende cabível! Parabéns pelo texto e pelo equilíbrio!

  4. Tu ta de sacanagem né? Escolher o ruim porque o pior pode assumir?
    Tira o ruim e depois luta pra tirar o pior.

Deixe uma resposta

*

ARQUIVOS

BH NO INSTAGRAM

FOLLOW @BARBARAHELLEN

BH NO FACEBOOK

www.000webhost.com