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POR Fernanda Soares

Geração Tinder

Colunas / 03.08.15

Abro a Apple Store e baixo o Tinder, o mais novo aplicativo para relacionamentos. A partir dele consigo ver pessoas que estejam a um raio x de distância de onde me encontro e posso analisar suas preferências a partir de músicas, livros, filmes ou séries que tenhamos em comum . Basta um clique no coraçãozinho do canto direito da tela – e o interesse mútuo – que uma frase aparecerá no meu celular falando que “it’s a match”. Com a ajuda dos espectros magnéticos, consegui encontrar o possível amor da minha vida de um jeito extremamente cômodo: bastou um smartphone na mão e uma rede wi-fi conectada com o meu aparelho. Mas afinal de contas, será tão simples a fórmula que nos auxilia a achar a metade da nossa laranja?

O sociólogo Zygmunt Bauman faz uma bela – e certeira – análise das atuais relações humanas. Para ele, vivemos tempos líquidos, nada é feito para durar, tampouco para se tornar sólido. Os relacionamentos escorrem entre os dedos feito água e a comunicação amorosa fica cada vez mais superficial. São esses os famosos amores líquidos, que mudam de forma muito rapidamente, sob a menor pressão. Na verdade, são incapazes de manter o mesmo formato por muito tempo. E é partir do amor à la geração Tinder que consigo presenciar a eterna necessidade que o ser humano tem de querer uma companhia, mesmo que seja só por um final de semana.

Noto com nitidez o medo que aquele rapaz ou aquela moça sentem ao se verem cara a cara com a solidão, afinal eles precisam de amparo, de alguém que diga que sinta a falta deles e até mesmo de um amor superficial, daqueles de causar inveja no Instagram. Por vezes há a construção de relacionamentos instáveis ou que sobrevivem a base do comodismo gerado pela paranoia pós-moderna. Implantou-se a cultura da exposição, onde o amor verdadeiro, daqueles de tirar o fôlego e tudo mais, só pode ser comprovado a partir das inúmeras declarações de afeto feitas numa dessas redes sociais existentes. Toda aquela segunda geração do Romantismo faleceu e deu lugar a uma sociedade onde todos desejam se relacionar, porém poucos se envolvem com profundidade. Bauman metaforiza os relacionamentos chamando-os de vaso de cristal, afirmando que ambos quebram na primeira queda. E não há metáfora que descreva com tanta perfeição a geração Tinder.

Esse método fordista de relacionamento reflete a solidão humana. Um Álvares de Azevedo perdido nos dias de hoje talvez afundasse suas dores e aflições através desta “pesca” no Tinder enquanto tomava uns shots de absinto e tentaria esquecer aquela dama da pele alva e macia como um pêssego. Mas ele também poderia perceber de antemão que o match da “vida real” vai muito além de gostos parecidos ou um perfil atraente. Isso tudo é só o embrião dos relacionamentos. A verdadeira afinidade dá um trabalho pra caramba e é preciso muito mais que uma posição política semelhante ou a paixão por The Smiths para decidir quem vai ou quem fica.

Difícil mesmo é você conhecer aquela pessoa que aceita ultrapassar a sua superfície e que chegue ao seu âmago sem se assustar com tudo aquilo que você não expõe no Facebook. No fim, nota-se que o Tinder é só mais uma ferramenta utilizada pelos corações carentes e solitários que se encontram acolhidos no limbo do ser vivo.

Com tantas opções, a oferta é grande. Não há mais paciência, não existe mais a magia de conhecer o outro – aliás, já se escancarou tudo, não é mesmo? –. Olhares perdidos não se cruzam mais, pois todos estão olhando para a mesma coisa: seu celular com seus mil e um aplicativos que servem para ajudar a fazer coisas que ninguém deveria nos ensinar, como conhecer pessoas novas, por exemplo. Certamente Gabriel García Marquéz ficaria horrorizado com a diferença gritante entre O Amor Nos Tempos Da Cólera e O Amor Nos Tempos Do Tinder. Afinal, ao invés de Florentino Ariza sustentar o amor incondicional por Fermina Daza durante cinquenta anos, ele estaria ocupado demais manuseando seu celular enquanto procurava a sua cara metade.

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Fernanda Soares tem 19 anos e é estudante de Direito e Ciências Sociais. Indecisa até pra saber o que colocar nessa descrição, carrega uma forte paixão pela arte, especialmente no campo da música e literatura. Suas veias políticas e para causas sociais saltam pelo seu corpo. Observação: não dispensa um churros no fim do dia.

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5 respostas para “Geração Tinder”

  1. Concordo plenamente com o comentario de gaia, conheci meu marido no tinder e nao me arrependo nem um segundo de ter utilizado o aplicativo, nao tenho nem paciência pra discutir com pessoas de mentes tao fechadas como quem fez esse texto

  2. Acho uma bobagem sem tamanho generalizar dessa forma toda uma geração e julgar as pessoas pelo uso do aplicativo. Conheci meu namorado meses atrás pelo Tinder, somos ambos tímidos e não curtimos muito baladas e frutas em

    • *festas em geral, o que aliado ao fato de não frequentarmos os mesmos espaços tornaria quase impossível nos conhecermos. Estamos muito felizes e o que estamos construindo não é nada superficial! Fuja um pouco dessas idéias pré concebidas de romance e abra um pouco a cabeça para experiências diferentes da sua, afinal nem todo mundo é igual, porque o amor deveria ser igual pra todo mundo? (Ou que todo mundo tenha que necessariamente estar buscando um grande amor)

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