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POR Bárbara Hellen

Eu não me calo

Colunistas / 28.07.15

Um dia desses saí de casa para almoçar na casa de uma tia. Como era um almoço despojado, fui vestida como estava, um shortinho curto e uma regata colada. No caminho, pensei que poderia levar um sorvete para a sobremesa e lembrei que iria passar por um posto de gasolina que tem uma conveniência. Instantaneamente, me reprimi. Todos os sábados, homens mais velhos, na casa dos 50 para mais, se reuniam ali para conversar. E eu, com aquele short colado e curto, chamaria atenção e com certeza seria constrangida por olhares que, se tivessem tal capacidade, poderiam arrancar todas aquelas roupas.

Me reprimi novamente, só que agora por outro motivo: lá estava eu sendo vítima de um tipo de machismo e de um tipo de abuso. Eu estava mudando minha rota para não ser abusada psicologicamente. Para não ser constrangida. Para não passar vergonha. Para não ter medo. E quantas vezes nós, mulheres, já não mudamos de caminho? Longe de mim ser valente, com 1.56 de altura e pouca força física, jamais arriscaria minha vida por um capricho de andar por uma rua escura. Prefiro evitar qualquer caminho que possa ser um perigo para mim. E esse tipo de pensamento só vai entender quem é mulher e vive diariamente as consequências de uma sociedade machista.

Nós vivemos o medo. Somos criadas assim. Um homem dificilmente vai passar pelas situações que nós passamos. Um homem nunca irá entender o que é ser puxada pelo braço no meio da balada, um homem nunca vai entender o que é alguém já chegar te beijando como se aquilo fosse o normal, um homem jamais vai entender o que é ouvir “você não pode porque é mulher”. Um homem jamais vai ter que cumprir qualquer padrão estético para conseguir uma parceira. E esses são apenas alguns exemplos.

Isso tudo ficou para nós, mulheres. E é nessas horas que vejo o quanto somos mesmo uma classe desunida. Brigamos por homens, os colocamos em reais pedestais, não respeitamos a atual do ex porque “ela é uma puta” e “ele é meu” – mesmo que ele tenha feito milhares de sacanagens ou simplesmente não te queira mais,  falamos mal quando uma mulher fica com mais de um homem por noite e nos classificamos diariamente entre “de família” e “piriguete”. É, a gente mesmo não se ajuda.

Já ouvi de alguns amigos o quanto eles odeiam o feminismo. Olho com tristeza porque mesmo que eu fale mil argumentos, eles nunca vão entender porque o feminismo existe. Eles nunca vão entender metade do que passamos. Aqueles que odeiam o feminismo, mais do que não entender, ajudam a propagar o machismo pela sua própria ignorância. Por não se colocar no lugar.

Hoje, agradeço por todas aquelas que têm coragem de se expor e propagar conceitos diferentes. Todas aquelas que têm coragem de tirar o véu e mostrar os abusos que as mulheres sofrem de seus maridos, país, irmãos, amigos, chefes ou desconhecidos. Aquelas que são mais macho que muito homem, como gostam de dizer, e tem coragem de expor suas caras e seus peitos para chamar atenção para uma causa. Aquelas que gritam, esperneiam e não aceitam que eu tenha que me vestir diferente para poder parar em um lugar repleto de homens. Aquelas que acham que não é carne: é respeito, é educação e é mais que tudo, consciência. Se um dia eu puder andar na rua sem medo, independente da minha roupa, não vai ser porque um homem me deu essa segurança: vai ser, sem nenhuma dúvida, porque muitas mulheres não se calaram. E é por isso que estou aqui dizendo.

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Bárbara Hellen é jornalista. Troca qualquer coisa por uma boa conversa, um bom livro ou um sábado na praia. Ela admite: é tagarela, cheia das opiniões, perfeccionista e organizada. Adora conversar sobre política, mercado de trabalho e religião. Otimista, crê que tudo vale a pena se a alma não é pequena.

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2 respostas para “Eu não me calo”

  1. Parabéns pelo texto, pela reflexão e, inclusive, pelo mea culpa… Nós mulheres temos que deixar de ser plateia de nós mesmas e passar a assumir o que nos incomoda, devemos ter empatia por outras mulheres e devemos, quando formos mães criar nossos filhos e filhas conscientes da igualdade de direitos (nestes incluído o respeito) e longe do machismo e de qualquer outra segregação do seu semelhante!

  2. Parabéns pelo texto! você expressou e relatou realmente o que as mulheres realmente passam. Se privam de certas coisas pra não serem taxadas de oferecidas, periguetes. Pois numa sociedade machista em que vivemos, a moioria das vezes quando a mulher sofre algum abuso, é culpada ou pela roupa que veste ou pela maneira que se comporta. Infelizmente essa é uma realidade triste.

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