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POR Juliana Albuquerque

Mais amor, menos reputação

Colunas / 27.07.15

“Mas você vai realmente escrever sobre isso? Não seria melhor, sei lá… se preservar?”.  Foram as primeiras palavras que eu ouvi de alguém próximo, ao contar-lhe sobre minhas pretensões de dar vida ao texto que você lê agora. Entre as tentativas de dissuadi-lo na breve discussão que se seguiu, eu entendi que mais do que uma questão de escolha, escrever sobre (cerceamento da) liberdade sexual feminina tornou-se uma necessidade.

Mas não o leve à mal, a intenção dele não era exatamente a de coibir minha liberdade de expressão. Sabe, ele só queria o meu bem… afinal, para que as mulheres sejam valorizadas estejam bem, basta que se resguardem e sejam discretas, mormente na vida sexual. Na verdade, se elas puderem se abster de ter uma, é ainda melhor.

No imaginário masculino, a mulher que não tem atrelada a si uma sexualidade pueril, quase infantil, vale menos. É que, ainda hoje, mais de 50 anos após a revolução histórica causada pela pílula anticoncepcional, é difícil para mentes obtusas conceberem a imagem de uma mulher tão, mas tão irreverente e petulante ao ponto de (pasmem!) ousar ser livre.

Eu nasci em uma família tradicionalmente católica, nada muito conservador, mas católica. Chego a contar nos dedos as missas dominicais para as quais conseguimos acordar. Aqui, boa parte dos preceitos religiosos acabavam sendo relativizados e pós-modernizados, menos, é claro, aqueles sobre abstinência. Ah, meus caros, a abstinência aqui sempre foi assunto sério – para a filha mulher, obviamente.

Vira e mexe minha mãe – mulher inteligente, esclarecida e bem-humorada – por mais incrível que pareça, me encurralava com uma interrogação pra lá de afirmativa: “Sexo só depois do casamento, né, filha?”, ao que a garota de 13 anos que eu era respondia um tímido e vacilante “sim”. Isso tudo enquanto me explicava detalhadamente como sexo e amor deveriam estar sempre juntos. A consequência disso é que o primeiro namoradinho de escola, ainda que amado como filho (um doce de rapaz, segundo a sogra), poucas vezes passou da sala.

O retrato acima não raro é vivido na esmagadora maioria das famílias brasileiras. Os pais, no afã natural de protegerem sua cria, por vezes reproduzem pensamentos enraizados há anos, adquiridos em sua própria criação. A falta de questionamento de dogmas comportamentais é, portanto, cultural.

Mas voltando ao tal namoradinho, ainda que ele tenha aparecido por volta dos meus catorze anos, fui arduamente fiel ao pedido da minha mãe até os dezoito, quando a privação parou de fazer sentido, junto com as tentativas dominicais de ir à igreja. Foi mais ou menos nessa época que eu percebi, com a ajuda de uma meia dúzia de leituras e alguns bons amigos, que a minha sexualidade era só minha. E não tinha instituição religiosa ou familiar que me pudesse apontar os dedos, reclamando os direitos sobre ela.

Desde então, ao contrário do que possa acreditar uma maioria conservadora, a vida teve bem menos orgias-homéricas-com-anões-pernetas-cambojanos, e bem mais aprendizado. A paz de consciência reinou, não antes da quebra de paradigmas (cá para nós, deixar de acreditar que eu me afogaria em um mar de enxofre com Hitler e cia. deve ter tido sua parcela de contribuição).

O problema é que muitas meninas não conseguem se livrar do tabu que enfrentam na adolescência a respeito da virgindade. Elas levam para a vida adulta os ensinamentos que receberam desde cedo, sobre o seu valor enquanto ser humano estar diretamente atrelado à quantidade de parceiros sexuais que possuem. E então essas jovens mulheres se escondem e dissimulam seus atos, ou pior: elas se privam.

Mas desconstruir essas crenças é mesmo muito difícil. Elas ficam entranhadas em alguma gavetinha do inconsciente quase impossível de abrir, porque são formadas bem cedo: aos 12 todos já conhecem a putinha da escola, geralmente a coitada que beijou primeiro, ou ficou com mais menininhos. Parece que nessa fase o fascínio pela vida sexual do outro é bem maior, já que a nossa própria ainda é uma incógnita.

Enquanto as meninas tentam se equilibrar na corda bamba que é manter a autoestima na microssociedade não lá muito amigável que pode ser o ambiente escolar, elas lidam também com toda sorte de pressões: para fazer, e também para não fazer. Já os meninos costumam encontrar um ambiente bem mais confortável. E nesse meio tempo, sobra muito pouco espaço para o exercício do autoconhecimento por parte das garotas. Ele geralmente fica de escanteio, frente ao julgamento das outras meninas e às pressões dos rapazinhos.

Agradar os outros costuma ser a prioridade. As vontades próprias são secundarizadas, e o principal: a futura mulher aprende que a liberdade tem um preço caríssimo, que repercute no seu grau de aceitação social. And that’s some deep shit.

Também é nessa fase que um dos sintomas mais patológicos do mundo feminino se manifesta. São mulheres taxando outras mulheres de putas e vagabundas. Mulheres depreciando e desmerecendo as que transam mais, que usam roupas curtas, que falam sobre sexo, ou que se comportam de maneira “inadequada”. Mulheres que, no desespero de serem notadas, reproduzem um discurso opressor, imersas na ilusão de superioridade que criticar a outra traz.

Você, mulher, que por um acaso tenha lido até aqui, quantas vezes já não chamou uma outra de “piriguete”, “desqualificada” ou “puta”? E quantas vezes não se sentiu melhor do que ela por, supostamente, dar-se mais valor?

Falta empatia.

Mas não só de quantidade vive a repressão sexual. Gênero conta, e muito. O privilégio de ter a sexualidade como parâmetro valorativo de sua capacidade e respeitabilidade não é só das mulheres, que o digam as minorias LGBT. Vide o recente e amplamente noticiado caso de Luizão (professor de filosofia do curso Anglo, em SP, há 5 anos), que, ao assumir-se Luíza, magicamente perdeu suas habilidades didáticas, sendo demitido por “problemas profissionais”.

É fácil, também, perceber que a imensa maioria dos homens vê com bons olhos a emancipação sexual feminina, desde que dela tirem proveito. São esses mesmos homens que enchem o peito para teorizar sobre o clássico: mulher para casar x mulher para transar.

Ao final, acaba sendo impossível livrar-se dos questionamentos sobre a origem dessa nossa obsessão doentia por fiscalizar a sexualidade alheia; sobre o porquê de mulheres serem tão (des) valoradas a partir de parâmetros sexuais, bem como no que consistiria o tão famigerado dar-se valor.

Depois do direito ao sufrágio, da instituição do divórcio, da obtenção de espaço no mercado trabalho e nas instituições políticas e de ensino (ainda mitigadas), parece que a emancipação sexual é uma das demandas femininas que mais encontra relutância da sociedade. O controle sexual resiste, perseverante que é, como uma das mais intransponíveis barreiras enfrentadas pelo movimento feminista.

Diante disso, imersos histeria coletiva do cerceamento sexual, os moços contadores de quilometragem feminina são um prato cheio para a psicologia. Suas mentes distorcidas foram programadas para a busca de uma pureza quase maternal, infantil mesmo. Chega a ser um ultraje à honra desses moços que suas namoradas/esposas tenham tido um passado. Eles simplesmente não sabem lidar. Tremem na base com uma mulher que se conhece bem. Esperneiam sem fim se suas amadas já andaram por outras camas. É… acho que andamos educando mal os nossos garotos (Vide a prática da pornografia de revanche).

E para exercer seu controle obsessivo e patológico da sexualidade alheia, a sociedade tem seus próprios mecanismos. Reza a antropologia que, quando um agrupamento social já não consegue, em razão do número, praticar uma coerção física e direta de seus membros, ele apela para algo mais sutil, mas não menos eficaz: o ostracismo. Já dizia o sociólogo francês Pierre Bourdieu, em outras palavras, que exclusão grupal dói na alma. Traduzindo: Os outros realmente exercem forte influência sobre você, mas não deveriam.

Quando se juntam ao ostracismo o medo do castigo divino e o sentimento de culpa, não há sexualidade que se desenvolva. Sexo passa a ser feio e sujo, ruim e estigmatizante, quando se trata justamente do contrário.

Como têm preguiça (e medo!) de pensar, os detentores do poder de ostracismo se pautam em uma série de mitos. Um deles é o de que os sexualmente libertos seriam verdadeiros depravados, cujo domínio perfeito do Kama Sutra lhes renderia uma vida sexual tão excêntrica quanto reprovável. Eles esquecem, no entanto, de que a liberdade não é um fim em si, ela é uma consequência.

O que eu estive tentando dizer nas mil quatrocentos e tantas palavras anteriores é que: você não é o sexo que pratica. Você é um ser humano multifacetado e complexo, cujo valor e dignidade vão muito além do número ou gênero dos parceiros com quem se relaciona.

Parece muito óbvio, mas a gente complica o básico e esquece de que quem decide é a gente: monogamia, poliamor, sexo casual ou abstinência, qualquer escolha é válida, desde que seja genuína e livre de pressões externas. A medida de uma consciência pacífica é o respeito que se tem para com os outros e para consigo. Por isso mesmo, é inaceitável que você deixe que te façam sentir mal, por fazer qualquer coisa que te faça sentir bem.

Então, sejamos um pouco menos bitoladas e ouçamos um pouco mais do que Jon Jett já vociferava nos anos 70:

“I dont’t give a damn ‘bout my reputation

You’re living in the past, it’s a new generation

A girl can do what she wants to do

and that’s what I’m gonna do!”

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Juliana. 21. Estudante do 7º período de Direito da UFMA. Seduzida pelas questões humanas e sociais. Esquerdista de iPhone que não vê problema nisso. Desacreditada de maniqueísmos políticos e obcecada por doces. Fascinada por tudo que é arte, incluindo bacon.

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Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do Site BH. Possibilitamos que o leitor conheça opiniões diversificadas sobre os assuntos em pauta nas mídias sociais. Sempre iremos expor visões diferentes para que o leitor se questione, questione o mundo ao seu redor e, principalmente, corra do senso comum. Quer ver o seu texto por aqui? Mande para redacaositebh@gmail.com

13 respostas para “Mais amor, menos reputação”

  1. Além do texto muito bem escrito, achei super interessante o diálogo entre pessoas com ideias diferentes e dispostas a interagir e não se ofender, como ocorre com frequência nas redes sociais. Parabéns, Bárbara, pelo site, e Juliana e Mailana, pela forma gentil e delicada como vieram a expor suas ideias. 😉

  2. Oi Juliana!!! Vc escreve muito bem. Traduziu tudo q senti na adolescência. Questionamentos bestas, julgamentos idiotas, medos, timidez…

  3. Oi Juliana, tudo bem? Realmente é legal discordar e ao mesmo tempo apreciar (muito). Como você percebeu no meu texto, nossas formas de ver o sexo são bem diferentes. Mas achei incrível como você usou isso pra expor a forma como as mulheres são taxadas e cobradas, de forma que passam a se desconhecer para serem “aceitas”. Isso não tem nada a ver com ter atitudes drásticas pra “provar” que não seguem o modelo da sociedade, mas sim, como você expos muito bem, com ser o que realmente escolher ser, o que faz feliz. Colocando um pouco na minha forma de pensar, nem mesmo Deus te obriga a tomar as decisões que ele deseja, nem Ele te tira o livre arbítrio, mas tem pessoas que se acham no direito de tirar isso das outras, vai entender… Vivo uma coisa que eu escolhi e que me preenche completamente. Como sabemos, na visão da “sociedade” está errado ser 8 ou 80, sempre tem uma coisa que não agrada, é feio ser a piriguete e também é feio ser radical demais, muito confuso pra minha cabeça! Bom mesmo é ser feliz com as nossas escolhas e ter convicção delas. Ao optar pela castidade, não me submeti a nada, escolhi, por minha própria vontade, seguir o que eu acredito. Mas muita gente não aceita que as pessoas acreditam em coisas diferentes. É triste… Mas assim caminha a humanidade “a passos de formiga e sem vontade”. Gostei muito do texto e do seu comentário, revelam muito bem como você expõe sua forma de pensar de um jeito super educado, respeitoso e inteligente, a gente sabe que tá em falta por ai! Beijos!!

    • Pois é, Mai, o ideal seria que o senso crítico imperasse, e que as pessoas conseguissem decidir livremente sobre suas vidas, ainda que isso signifique a abstinência (como você escolheu depois de viver o outro lado). O chato é quando as nossas escolhas ou abstenções são fruto das pressões externas, por mais sutis que elas sejam. A gente tem medo do diferente, e expressa esse medo com repúdio. A gente também tem preguiça de ver o lado do outro. Por um tempo eu fui meio ressentida com a igreja por causa de seus dogmas. É que eu ainda não era tão segura assim das minhas decisões. Hoje eu vejo que dentro do mundo da religiosidade existem muitas pessoas sensatas e esclarecidas, e que você pode sim pensar diferente de mim e ser bem feliz. É que sexualidade é uma coisa tão íntima né?!? Eu não sei em que raio de momento da nossa vida a gente aprende que pode se meter, ainda que indiretamente, na do outro!
      De mais a mais, fico muito feliz que tu tenhas gostado do texto e te desejo (muito sinceramente) um monte de felicidade com teu amor!
      um Beijão, Mai!

  4. Genial e lúcido! É tanta coisa enraizada pelo machismo e pela falta de informação que não condiz mais com a relações de hoje. Crescemos numa sociedade que ainda priva e ridiculariza, de certa forma, as mulheres e tudo aquilo que representa o feminino, vide as transsexuais, travestis, drags ou o famoso “gay afeminado”. Lindo texto, Juliana.

  5. Esse texto está simplesmente SENSACIONAL! Parabéns, Juliana! És uma excelente escritora. Ah, tenho uma sugestão ao site: mais textos da Juliana, por favor!!

  6. Que texto incrível e bem desenvolvido! Amei e concordei com cada palavra! Amando o blog sempre!

  7. Triste mesmo é quando os rótulos são postos por outras mulheres… Ou quando homens e mulheres tentam uma explicação “fisiológica” (“mulheres só sentem vontade na época da ovulação” ou “homens sentem mais vontade que mulher, é natural que tenham mais parceiros…” ou o infame “mulher não gosta de sexo, gosta de carinho” -anh?). Incrível que ainda se pense dessa forma, e por isso que a “indústria do sexo” e suas consequências nocivas (doenças venéreas, tráfico de mulheres, pedofilia, etc) estejam por aí firmes e fortes!

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