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POR Marília Kury

Eu passo longe deles

Colunas / 20.07.15

Pensando bem, acho que eu cresci numa casa excêntrica. Meu pai é músico, e quem trabalha com arte tem que ser único, senão não é notado. Minha mãe agora começou com uma história de dizer que é alienígena, porque ela é diferente de todo mundo. Não, mãe, a senhora não é um E.T., o que te faz diferente é quantidade de “como”s e “por que”s que a senhora consegue inserir em uma frase, e eu te agradeço imensamente por ter me passado, mesmo sem querer, essa coisa de ser crítica. Dessa combinação, voilá, surgi eu.

E eu, com meu raciocínio meio torto, nem sempre certo, resolvi questionar tudo e todos. Resolvi que havia em mim uma necessidade intrínseca de ser do contra. Meninas brincam de princesa? Vou andar de bicicleta. Agora todo mundo anda de bicicleta? Patins pra mim, obrigada. São opiniões divergentes que acendem discussões que mudam o mundo. Eu sou a chata necessária, aceita que dói menos.

Mas aí veio a adolescência. Ahhh, que fase do desenvolvimento humano. Há uma necessidade tão grande de se encaixar que você não vê problemas em abandonar as características únicas que fazem de você o que você é e virar massinha de modelar, pronta para ser posta em formas e sair igual a todas as outras, afinal só assim vão te aceitar, você vai achar um grupo e você vai ser feliz.

Comigo não foi diferente. Era gordinha, de dentes tortos, cabelos chateados e cheia de espinhas, e com os meus 11 anos, enquanto deveria estar brincando, comecei a me analisar no espelho. Eu deveria ser magra, ter o cabelo “bom” e a pele lisinha. Alisei meus cachos- que erro gigantesco-, tomei Roacutam, aos 15 anos me tornei bulímica (é a primeira vez que revelo isso, então, desculpa, mamãe). Aos 17 anos eu era quase feliz, arranjei até um namorado, só me faltava perder 2 quilos. Nossa, perdi? Só mais 2, pra  eu poder ser feliz.

E assim eu fui adiando a minha felicidade. Por que eu tenho que ser magra para ser feliz. Eu tenho que ter cabelos longos para ser feliz. Agora eles têm que ser loiros. Agora eu tenho que ser malhada, meu nariz tem que ser fino, e eu tenho que usar roupas de grife, senão não tem felicidade. Mas perceber que isso não me deixava feliz foi essencial para a minha mini revolução pessoal.

Passei grande parte da minha vida adiando minha felicidade, como se a quantidade de gordura que eu tivesse no corpo pudesse ditar quando eu poderia ser capaz de me amar. Um dia, depois de ver tufos de cabelo que eu estava perdendo como efeito colateral da dieta Dukan, percebi o quanto isso era ridículo. Lembrei dos meus pais e como eles me ensinaram a ser diferente. Exerci meu direito de questionar os padrões. Sabia que o bonito é ser magro e malhado porque remete a ter dinheiro o suficiente para poder se dar ao luxo de passar horas na academia? Não é o caso da maioria esmagadora da população. No Renascimento, grande parte da Europa não tinha o que comer e era bem magra. Sabe quem era considerado bonito naquela época? Pois é, no fim, é tudo sobre afastar as pessoas da sua humanidade.

Nos é imposto que  só somos seres humanos com algum valor se obedecermos a um padrão não-humano de  perfeição, e o bombardeamento incessante dessa ideia fez com que a maioria das pessoas –mulheres em especial- absorvesse isso como verdade imutável. A ideia de ser saudável, essa  sim deve ser defendida, se confunde com a ideia de um corpo magro e musculoso. E, na busca de um corpo e rosto ideal, as pessoas se submetem a métodos abusivos, dolorosos, e pior de tudo, prejudiciais a saúde. Tudo isso para alcançar uma imagem que pode até ser biologicamente inatingível. Eu fui bulímica dos 15 aos 17 anos e depois em episódios esporádicos de ódio ao espelho. Minha tia contraiu uma superbactéria com injeções pra aumentar o bumbum. Tem gente que morre fazendo cirurgia plástica e muitas outras que acabam com seus fígados e rins tomando suplementos alimentares.

Naquele dia eu me olhei no espelho e não me vi distorcida. Vi todas as noites em pubs e mesas de bar, e as conversas com os meus amigos sobre a vida, que eu não trocaria por nada nesse mundo. Vi todas divertidas passadas na cozinha com quem eu amo, cozinhando e bebendo vinho. Vi todos os livros e filmes que eu devorei com auxílio de um balde de pipoca. Vi os dias em que eu tentava confeitar bolos até a perfeição. Todas as minhas experiências me moldam e definem minha personalidade, meu valor. Vi alguém que era gordinha, morena, baixinha e tinha a boca torta, e não me importei com isso por que nenhuma outra pessoa era igual a mim. Cortei o cabelo, e com ele todas as expectativas que alguém poderia ter de mim. Tatuei a espiral de Fibonacci pra me lembrar que sou a minha essência repetida maior ou menor, e devo ser fiel aos meus princípios. Me olhei no espelho e me amei. Essa sensação foi tão boa que decidi que eu seria o centro do meu universo a partir de agora. E se isso ou se a minha aparência não agradasse as pessoas, bom, talvez esse não seja o tipo de pessoa que eu queira perto de mim.

“Tá mais… forte, hein?” Disse o meu vizinho ao me ver depois de um ano e meio. Também, pensei. Mas na verdade você está vendo que estou é mais gorda. Eu passei um ano e meio no Ciências Sem Fronteiras na Inglaterra, e a combinação de dois invernos com uma lojinha convenientemente situada a 5 minutos do meu quarto me trouxeram 10 quilos a mais. Mas com esses 10 quilos também vieram auto-conhecimento, realização pessoal, aceitação, força de ir contra ideologias com as quais eu não concordo e uma preguiça gigante de  obedecer a qualquer padrão que qualquer pessoa pense que eu deva me encaixar. Pensando bem, tudo apontava desde o começo que eu deveria ser assim. E eu, pensando desse jeito meio torto, nem sempre certo e nem sempre aceito, decidi me amar. E está sendo ótimo. É, acho que estou mais forte mesmo.

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Marília Kury, 23 anos, estudante de arquitetura e urbanismo, cinéfila, louca por gastronomia, meio revolucionária, amante das artes e das coisas diferentes.

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7 respostas para “Eu passo longe deles”

  1. Adorei o texto! Super parabens pra ti, Babu, pelo site e pelos temas. Tenho lido sempre que posso e gostado muito.
    E um parabéns especial pra Marília! Não só por se por a escrever, mas por se expor para chamar atenção a um problema tão recorrente entre nós, meninas.
    E viva o diferente! Fui criada da mesma maneira e sei que devo a isso a minha felicidade.

    • Obrigada, Lá! 🙂

      Com certeza, um problema super recorrente e que muitas vezes nem percebemos que estamos sendo influenciados. Que sejamos cada vez mais únicos, pois é isso que nos faz especiais.

  2. Texto maravilhoso. É tão raro hoje em dia ver pessoas que aceitam como são apesar de a sociedade insistir em querer nos enquadrar em padrões nem sempre saudáveis.
    Parabéns ao site pela ideia e pela autora do texto!

    • Obrigada, Abreu. Hoje em dia é raro mesmo, até porque estamos sempre sendo bombardeados com padrões impossíveis de alcançar. Ter coragem para se aceitar, com as nossas imperfeições, é admirável. Que sejamos sempre mais livres!

  3. Nossa, como é maravilhoso ir contra a maré (ou não)… o importante é que, o que quer que vc faça, seja de forma consciente, que nos traga felicidade, realização pessoal e que preserve nossa auto-estima! Beleza não é um padrão, creio na verdade que seja um estado de espírito, um encantamento pessoal que atrai… Amor próprio, conteúdo e segurança são enebriantes!

  4. Maravilhoso!!!Definiu bem algo que muitos vivem e não tem força para questionar!

  5. Incrível esse texto. Se eu já não fosse fã da autora dele, teria me tornado agora.

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