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POR Tiago Arruda

Distúrbios Alimentares

Colunas / 20.07.15

Na busca por alcançar os padrões de beleza impostos pela sociedade, muitos jovens optam por caminhos que podem ser prejudiciais a saúde e que podem deixar sequelas para a vida. Conversamos com o médico psiquiatra Tiago Arruda que nos esclareceu como as diferenças entre os principais distúrbios alimentares e como proceder caso um amigo ou familiar esteja com suspeita de desenvolvimento de algum distúrbio alimentar.

Site BH – Como um jovem pode criar um distúrbio alimentar?

É importante deixar claro que as causas dos transtornos alimentares não são totalmente esclarecidas, mas, baseando-se em estudos científicos, acredita-se que eles sejam causados pela interação de vários fatores, como biológicos, socioculturais e psicológicos.

Sobre os aspectos biológicos, acredita-se que exista uma disfunção envolvendo os neurotransmissores serotonina e dopamina nos transtornos alimentares. Na anorexia nervosa, tem-se observado alterações de imagens cerebrais, mas não se tem certeza se essas alterações são anteriores à doença ou consequentes à desnutrição. A genética provavelmente tem papel relevante, principalmente na anorexia nervosa, o que foi observado principalmente estudando-se a concordância da doença em gêmeos idênticos e não-idênticos.

Acerca dos aspectos socioculturais, sabe-se que os transtornos alimentares ocorrem com mais frequência em culturas e profissões que valorizam e incentivam a magreza.

Sobre os aspectos psicológicos, temos observado que indivíduos perfeccionistas tem uma maior tendência a apresentar transtornos alimentares e também que esses transtornos muitas vezes se iniciam após um evento estressante na vida do indivíduo. Pacientes com anorexia nervosa frequentemente relatam que, durante a infância, sua mãe ou outro familiar faziam críticas sobre seu peso ou forma do corpo.

Site BH – Quais são os tipos de distúrbios mais comuns entre os jovens?

A prevalência de bulimia nervosa entre mulheres jovens é de cerca de 1 a 1,5%, enquanto a prevalência de anorexia nervosa entre mulheres jovens é aproximadamente 0,4%. Em outras palavras, a bulimia nervosa parece ser cerca de três vezes mais frequente que a anorexia nervosa. Pouco se conhece sobre a prevalência desses transtornos em homens, porém sabe-se que tanto a anorexia quanto a bulimia nervosas são cerca de dez vezes mais comuns em mulheres que em homens.

Site BH – Qual é a diferença entre bulimia e anorexia? Elas podem acontecer ao mesmo tempo?

A bulimia nervosa e a anorexia nervosa são diagnósticos excludentes, isso significa que elas não podem ocorrer ao mesmo tempo num mesmo indivíduo, embora um indivíduo possa ter anorexia nervosa numa fase de sua vida e bulimia nervosa noutra época de sua vida.

Há várias diferenças entre os dois transtornos, embora eles sejam frequentemente confundidos. Falando de uma forma simplificada, indivíduos com bulimia nervosa têm ataques de comer compulsivo, quando ingerem muitas calorias em pouco tempo se sentem culpados e com medo de engordar e então se engajam em comportamentos compensatórios para não engordar, como provocar vômitos, tomar laxantes, diuréticos, estimulantes, fazer exercícios físicos ou jejuns prolongados (o que acaba provocando outro ataque de comer compulsivo, gerando um ciclo vicioso). Indivíduos com anorexia nervosa comem pouco (subtipo “restritivo”), são bastante emagrecidos e tendem a ter graves complicações clínicas decorrentes da desnutrição.

O problema é que há um subtipo de anorexia nervosa chamado de “compulsão alimentar purgativa”, no qual o indivíduo com anorexia nervosa tem ataques de comer compulsivo e comportamentos compensatórios para não engordar. Para diferenciar esse tipo de anorexia nervosa da bulimia nervosa, devemos saber que na anorexia nervosa os pacientes têm uma grave distorção da imagem corporal que os levam a achar que estão gordos, apesar de bastante magros, e assim esses pacientes mantém um peso bem abaixo do normal.

Já na bulimia nervosa, não ocorre essa grave distorção corporal e os pacientes apresentam um peso normal ou acima do normal. Consequentemente, as complicações clínicas da bulimia nervosa são menos graves que da anorexia nervosa, o que é outra diferença entre os dois transtornos.

Site BH – Qual são os tratamentos para essas doenças? É possível a cura?

O tratamento da bulimia nervosa normalmente pode ser feito de forma ambulatorial, ou seja, indo para consultas e voltando para casa. Ele se baseia numa tríade formada por medicação (fluoxetina e topiramato são os mais estudados), psicoterapia (terapia cognitivo-comportamental se sobressai nos estudos) e aconselhamento nutricional.

O tratamento da anorexia nervosa é mais complicado e frequentemente necessita de internação em razão de graves complicações clínicas e/ou risco de suicídio. Assim que não há mais risco de suicídio, que as complicações clínicas são corrigidas e que um peso adequado é atingido, o paciente deve ser encaminhado para tratamento ambulatorial, que também é multiprofissional, envolvendo psiquiatra, clínicos, psicólogo e nutricionista ou nutrólogo.

Em relação à cura, sabe-se que a maior parte dos indivíduos que têm um episódio de anorexia nervosa se recuperam totalmente com ou sem tratamento. Por exemplo, em um estudo feito na Suécia com adolescentes com anorexia nervosa, Nilsson & Hagglof constataram que 84% deles encontravam-se sem a doença após 16 anos. Entretanto, alguns indivíduos nunca se recuperam totalmente da doença e outros apresentam épocas sem sintomas e épocas de recorrência de sintomas.

Já em relação à bulimia nervosa, estudo de Eddy e colaboradores demonstrou que 65,6% dos pacientes apresentam recuperação completa, 82,8% apresentam recuperação parcial e 14% migram para o diagnóstico de anorexia nervosa.

Site BH- Qual é o principal motivo do crescimento desses distúrbios entre os jovens?

Os transtornos alimentares sempre foram mais comuns entre os jovens. Esses transtornos raramente se iniciam antes da puberdade ou após os 40 anos. Então, o aumento dos casos desses transtornos entre os jovens representa, na verdade, um aumento desses casos na população de forma geral, o que vem sendo de fato observado nos últimos anos. Entretanto, ainda não está claro se isso representa de fato um aumento na prevalência da doença ou simplesmente uma melhora no diagnóstico dos transtornos alimentares, uma vez que tanto os profissionais de saúde quanto os pacientes estão mais informados sobre tais transtornos, em razão da maior divulgação de artigos científicos e da mídia geral.

Não está claro porque esses transtornos são mais comuns em jovens. Caminhando por um terreno especulativo, sabemos que no fim da puberdade ocorrem importantes mudanças biológicas: a formação do sistema nervoso central finalmente se completa e mudanças hormonais significativas se impõem. Além disso, os transtornos alimentares frequentemente são iniciados após períodos de estresse e no fim da puberdade e começo da idade adulta costumam ocorrer vários eventos potencialmente estressores: universidade, emprego, migração, separação dos pais, casamento, gravidez, filhos, problemas financeiros, divórcio etc.

Site BH – Os padrões de beleza inalcançáveis podem influenciar no desenvolvimento de uma doença?

Os padrões de beleza e a valorização da forma física podem contribuir para o desenvolvimento de transtornos alimentares em indivíduos com outros fatores de risco para desenvolver esses transtornos. Prova disso é o fato de que tanto a anorexia nervosa quanto a bulimia nervosa são mais comuns em profissões que exigem magreza, baixo peso e que promovem um ambiente muito competitivo, como modelos, dançarinos, jóqueis, artistas e atletas de alta performance.

Site BH – Como é possível identificar que uma pessoa tem um distúrbio alimentar?

Embora estejamos a conversar sobre os transtornos alimentares mais famosos, a anorexia nervosa e a bulimia nervosa, existem também outros transtornos nesse grupo, que são o transtorno de compulsão alimentar, transtorno de ruminação, transtorno alimentar restritivo e pica. Falando de uma forma leiga, se você conhece alguém que está comendo pouco e está emagrecendo ou tem ataques de gula em que come muito em pouco tempo, ou regurgita/vomita o que come ou come coisas não-comestíveis (areia, por exemplo), essa pessoa pode ter um transtorno alimentar. Por isso a importância da avaliação médica.

Site BH – Qual é a providência que familiares devem tomar ao identificar ou suspeitar que um familiar esteja desenvolvendo um distúrbio alimentar?

Outros transtornos psiquiátricos, diversas condições clínicas e vários medicamentos e drogas de abuso podem causar alterações do comportamento alimentar que podem ser confundidas com transtornos alimentares. Por isso, em caso de suspeita de transtorno alimentar, recomendo marcar uma consulta com um médico psiquiatra. O médico psiquiatra então solicitará exames tanto para confirmar que se trata de um transtorno alimentar quanto para averiguar as possíveis complicações clínicas já causadas pelo transtorno. Além disso, ele fará encaminhamentos para outros médicos e outros profissionais, como psicólogo e nutricionista, além de julgar se há ou não a necessidade de internação.

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* Entrevista por Bárbara Hellen

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