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POR Bárbara Hellen

Não deixe para trás o seu caráter

Colunistas / 14.07.15

É interessante perceber como ficamos revoltados com crimes bárbaros, mas não somos capazes de questionar nossos próprios erros. Como um ser humano é capaz de violentar uma criança? Para mim, o desvio do bem que faz com que seres humanos ajam como animais (ou pior do que eles) começa bem antes, com ações bem menores. São raros os casos de quem comete um crime grave sem ter antes cometido algum outro crime menor sem ter sido pego. Sempre atravessamos limites, e temos que vigiar nossas ações para que os limites atravessados não deixem para trás o nosso caráter.

Quem nunca mentiu? Sim, eu já. Por coisas pequenas e também por coisas que considero grandes. Entre erros e acertos, coloco algumas mentiras nos meus erros. Existe sim diferença entre errar uma vez e errar quatro. Uma é erro. Quatro é hábito. Hábitos estão na nossa zona de conforto, não nos incomodam. Ou seja: fazem parte de você. Por isso, minha vigilância atenta sobre mim me relembra sempre desses erros, para que não virem hábito.

Quando estamos em constante convivência com pessoas que acreditam que trair é normal, é necessário cuidado extra para não achar que, eventualmente e por qualquer desculpa que seja, trair é admissível. Não é normal: é erro. Acontece sim nas melhores famílias. Mas não é porque acontece sempre que deixa de ser erro.

Na minha convivência pessoal, percebo que, às vezes, fico de fora: errar deixou de ser erro. Passou a ser: viver a juventude, aproveitar a vida, curtir o momento. Será? Porque para mim não importa quantas erros eu cometa, eles sempre serão erros. E claro que serve para a nossa evolução moral e pessoal. Mas só cumpre sua função se aquela ação for identificada como um tropeço e não como uma vitória da juventude, uma história engraçada para contar…

Nessas horas, me questiono onde iremos chegar, para onde caminha nossa juventude. Não estamos evoluindo nossa moral, pois banalizamos essa moral em nossas pequenas atitudes: apoiamos traição, mentimos para acobertar nossos erros, enganamos nosso chefe com uma ressaca disfarçada de gripe, damos valor para as imoralidades da TV. É tudo normal, cool, coisa de jovem.

Não é a toa que focamos em querer punir como adultos aqueles jovens que chegam ao ponto de cometer um homicídio. Teria como ele agir diferente? Não entro no mérito da educação que é obrigação do governo, mas a educação que é obrigação da sociedade. É aquela educação que eleva nossa moral por nos desafiar a diferenciar erros e acertos. É ver uma criança batendo na mãe no supermercado e achar errado, é ver o namorado traindo a namorada e nem pensar duas vezes em contar a verdade, é ver uma amiga optando por um caminho ruim e a chamar para a razão, é ficar sóbria quando todo mundo tá bêbado demais para dirigir. É não se omitir em meio a ações que discordamos.

Por achar que falhas são desvios, muitas vezes fui chamada de careta. De chata. De fresca. De patricinha. Sim, eu erro! Mas, costumo buscar o caminho onde haja menos erros do que acertos. É o caminho mais difícil e mais chato também, pois nos exige bem mais. Exige que moldemos sempre nosso caráter para bem. Uma constante vigília. E em uma sociedade cada vez mais deturpada, matamos um leão a cada dia.

Cometer deslizes é fundamental para a nossa maturidade, para que possamos ser pessoas melhores. Não dá para escolher onde e quando nosso caminho vai ser desviado, mas existe sempre a possibilidade de voltar para o bem e optar agir de acordo com bons valores, por mais difícil que seja a situação. Optar pela verdade no lugar da mentira, pela compaixão no lugar do ódio. É como acredito que ainda podemos mudar a sociedade: se for para desviar alguma coisa, vamos desviar o máximo de pessoas para o caminho do bem.

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Bárbara Hellen é jornalista. Troca qualquer coisa por uma boa conversa, um bom livro ou um sábado na praia. Ela admite: é tagarela, cheia das opiniões, perfeccionista e organizada. Adora conversar sobre política, mercado de trabalho e religião. Otimista, crê que tudo vale a pena se a alma não é pequena.

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3 respostas para “Não deixe para trás o seu caráter”

  1. Sempre lúcida! E, afinal, toda unanimidade é burra…

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