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POR Ludmila Burnett

Quando beber e dirigir vira cultura

Colunas / 13.07.15

Vai ficar tudo bem. Vai ficar tudo bem. Repetia a frase como um mantra em minha cabeça enquanto embarcava para São Luís. Pela primeira vez meu retorno à cidade não era motivo de alegrias ou comemorações. Tínhamos sofrido um acidente de carro. Mesmo não estando presente me incluo, um desastre dessa proporção mexe com a família inteira. Eram avós, tios, primos, tentando somar forças e gerar uma corrente de pensamentos positivos em prol da recuperação da minha sobrinha. E como essa corrente foi grande, como a cidade inteira se solidarizou. Não consigo mensurar a quantidade de mensagens recebidas, de igrejas (de todos os tipos) orando incessantemente, de amigos tão zelosos que doavam seu tempo e sua fé naquele leito frio de hospital de forma tão incansável. Laura espalhou amor pela cidade inteira. E por cinco dias eu presenciei a esperança como nunca em minha vida.

Pensamos que essas coisas nunca vão acontecer com a gente, mas não era a primeira vez que eu tomava conhecimento de uma história de violência no trânsito. Nosso Estado, tão carente em tantos tópicos, não possui nenhuma política pública de segurança do trânsito realmente ativa. A Lei Seca, aprovada desde 2008 no país, nunca foi uma operação assídua ou prioridade dos nossos governantes. Quando ocorre é apenas uma, em determinado local, sendo altamente burlável. O Maranhão é o Estado que mais mata no trânsito e as maiores vítimas são crianças e jovens. Mortes que poderiam ser evitadas se a fiscalização e a punição fossem severas.

Em compensação, o Estado não atua sozinho, o hábito que se instalou de beber, dirigir e se sentir seguro fazendo isso já virou praticamente patrimônio cultural. E se pararmos para pensar, no fim do dia, temos sorte de voltarmos vivos para casa. Mesmo que você não beba e dirija, nunca sabe quem irá cruzar o seu caminho.

Levantar esse debate, principalmente dentro de casa, é fundamental para tentarmos virar o jogo. Afinal, o que mais é preciso para rever nossas atitudes? Eu não desejo a ninguém (nem mesmo a quem provocou isso) o luto que minha família tem passado. Se não pude medir a solidariedade que recebemos, a dor que se alastrou em nós é igualmente imensurável. Perder uma criança é perder parte do nosso futuro, tudo que vivenciaríamos foi ceifado junto com sua partida.

Faz apenas dois meses que Laura nos deixou, às vezes parece uma eternidade, às vezes parece que foi ontem, às vezes ainda torço para ser mentira. É como se fôssemos automóveis em manutenção na oficina, só que diferente desses tantos carros que idolatramos e colocamos acima de qualquer vida, nossa lataria não remove essas marcas. Temos que seguir em frente mesmo com tantos machucados, é a única opção.

Que sigamos em frente então, não só a família mas a sociedade. Seguindo em frente para rever nossos atos e nossas prioridades, poupando vidas e não interrompendo a estrada de ninguém. E só assim, quando mudarmos esse quadro, mesmo que não seja da forma que eu imaginava quando embarquei naquele avião, ficará tudo bem.

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Ludmila Amado Burnett se mudou para o Rio de Janeiro para terminar o curso de Arquitetura e Urbanismo e ter novas experiências, principalmente na área de urbano. Adora escrever sobre os mais diversos assuntos e é tia de 5 lindos sobrinhos, quatro iluminam seus dias aqui na terra e um agora a guia do céu.

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10 respostas para “Quando beber e dirigir vira cultura”

  1. Quanto sofrimento por causa de uma atitude inresponsável….O efeito do álcool passa mas a culpa dura para sempre ,assim como o sofrimento de quem perdeu a pessoa amada

  2. Desde quando soube do acontecido,a minha revolta sobre esse “hábito” aumentou ainda mais. Tenho meu filho e não vejo a minha vida sem ele. Não consigo mensurar a dor que vocês passam, pois ela nunca deixará de existir. Podemos apenas acostumar com a ausência mas a dor nunca passará.
    Sempre me questiono sobre reportagens ou mesmo sobre fatos nos quais a comunidade cobra “presença” de policiais nas ruas, “puniçôes mais severas”…
    No Brasil, sempre queremos resolver um problema e nunca evitá-lo.
    Sempre as pessoas jogam a sua responsabilidade para outros, seja em casa, na escola, no trânsito…
    A formação de um cidadão consciente e responsável começa em casa. Faça sua parte, dê o exemplo.
    Vamos parar de ser hipócritas de achar que nada acontece com você.
    Vamos ser humildes. Admita que não tem capacidade de dirigir depois de beber e se for beber, vá preparado, não vá de carro.

    • Acho que tem que mudar a situação como um todo. É necessário maior presença dos policiais na rua, punições mais rígidas e também uma educação voltada para o trânsito nas escolas e em casa. Se fizermos apenas uma dessas mudanças, não será suficiente. Temos que agir de diversas maneiras.

  3. O mais revoltante é saber que existem centenas de grupos nas redes sociais, informando os pontos onde estão tendo blitz pela cidade!
    Isso deveria ser crime e os responsáveis devidamente punidos!!!

  4. O comportamento do ser humano tem sido cada vez mais individualista e inconsequente. As pessoas são capazes de fazer quaisquercoisas para se sentirem felizes e realizadas. E como várias outras atitudes, beber e dirigir é para quem pratica, uma necessidade de demonstrar que tem o poder em suas mãos e que nada pode lhe atingir, independente inclusive, se for atingir a outras pessoas.

  5. A perda de um ente querido para a violência no trânsito dói por pensarmos infinitas vezes o quanto seria simples evitar o ocorrido. Mas é um simples que não depende só de nós… Essa impotência também dói.

  6. Lud, partilho da sua dor e da sua revolta! Assim como partilho da opinião que é uma questão cultural (absurda, mas é), que inclusive faz com que a sociedade veja, no fundo, no fundo, as mortes e danos causados nesse tipo de crime (sim É CRIME), como algo “involutário” (“mas não houve intenção”). Basta que vejamos a conivência de amigos, parceiros, família com o mau hábito de dirigir e beber, quando esse risco assumido, que numa fração de segundos pode acabar com a vida e/ou futuro de alguém, é consequência de famílias e sociedade permissivas e calcadas em valores cada vez mais egoístas e rasos… Que não nos calemos, pois toda mudança requer luta!

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