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POR Bárbara Abreu

Segregação do Lazer

Colunas / 10.07.15

Não é de hoje que vemos nos eventos de São Luís a divisão de festas em inúmeros espaços diferenciados, os quais estão baseados unicamente no poder aquisitivo do público.

Infelizmente, essa cultura arcaica tem origem na colonização elitizada pela qual nosso Estado passou, uma vez que não vemos esse tipo de organização em outros lugares. Essa cultura vem tomando proporções ainda maiores e hoje há uma divisão desnecessária em espaços já elitizados.

Alguns podem argumentar que esses espaços são mais seguros. Concordo que nossa cidade está atormentada pela insegurança e pelos casos recorrentes de furtos e homicídios. Porém, partindo do pressuposto que a polícia local está ou deveria estar no entorno do local e que a própria organização é responsável pela segurança do público como um todo, não vejo a segurança como justificativa para as referidas divisões.

Verificamos isso até mesmo em teatros e em estádios de futebol, por exemplo. Onde a seleção dos espectadores é realizada através de ingressos, espaços e pessoas diferenciadas.

Não podemos culpar somente os organizadores de eventos, uma vez que o povo se acostumou a ter espaços diferenciados em todas as áreas de lazer. O público não somente gosta de estar num local privilegiado e sim, faz questão da segregação por conta do “status” que a área “privê” proporciona e questiona caso o evento não disponibilize uma área privativa.

Atualmente, percebe-se isso até mesmo em eventos e locais que, por si só, já atraem um público elitizado e diferenciado. Espaços freqüentados por pessoas socialmente privilegiadas. Muitas vezes mesmo com a inviabilidade de diferenciação por conta do tamanho do local, por exemplo, ainda assim é marcante a divisão social pelo fato de que mesmo nesses locais, procura-se uma forma de se destacar que pôde pagar mais pelo evento.

Nesses espaços privilegiados, percebemos a diferenciação no atendimento e no acesso do público, ao qual é dispensado um tratamento sofisticado, garçons a disposição e até mesmo os recorrentes foguetinhos em garrafas mais caras.

Destaca-se, assim, o preço dos eventos locais, os quais se mostram abusivos quando comparados aos preços dos mesmos eventos em outros Estados. Além da diferenciação das áreas, temos a excessiva distância entre os valores cobrados. Reiterados shows locais costumam cobrar pelo melhor espaço valores exagerados, os quais dificilmente proporcionam, além da área, a gratuidade de bebidas e comidas.

Assim, devido à cultura do público em querer sentir-se diferenciado, os responsáveis pelos eventos, visando atender as preferências de uma minoria, cobram valores exorbitantes e não proporcionais às atrações e à estrutura disponibilizada, satisfazendo a vaidade daqueles que almejam o “status” superior e lesando os direitos de todos os espectadores, inclusive os da “elite”.

Devido a essa busca pelo “status”, pelo ter para ser, os eventos acabam perdendo o seu principal sentido, ou seja, a diversão e, inúmeras vezes, afastando quem realmente quer curtir a atração oferecida e se divertir. Seja porque não está disposto a pagar um preço abusivo, seja porque não pode pagá-lo, evidenciando em mais um espaço as contradições sociais da nossa sociedade.

Segundo a sabedoria popular “Existem coisas que o dinheiro não compra”, seria essa necessidade de aparente superioridade social uma delas?

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Bárbara Abreu é advogada, graduada na Universidade de Ensino Superior Dom Bosco – UNDB.

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7 respostas para “Segregação do Lazer”

  1. A discussão sobre higienização social, veio a tona (mas não que não existisse antes) com o surgimento da idéia de Copa do Mundo no Brasil. A vantagem dessa catástrofe foi aumentar o debate sobre isso e em São Luís, como o texto diz, não vai parar tão cedo pois as pessoas gostam e estão dispostas a tudo por essa separação. Pelo espaço vip gold premier, mas aos poucos começam a aparecer eventos diferentes com ocupação do espaço público. Ótimo texto e abre muita oportunidade para debates.

    • Glaucia, nunca tinha ouvido falar do termo “higienização social”. Interessante, pois é isso mesmo que acontece nas festas e eventos aqui no Brasil – e em especial em São Luís. É a segregação acontecendo de maneira camuflada, velada, como se fosse apenas por motivo de segurança. Não é. E o que preocupa mais é quando essa segregação atinge espaços públicos, que deveriam ser para a comunidade como um todo.

  2. Adorei o artigo, traduz muito bem a realidade aqui de São Luis mesmo.
    Outro dia em uma festa, me senti como um boi em um seleiro, eram tantos espaços separados por grades que mal podíamos nos movimentar dentro da pista de dança.

  3. Muito bem ressaltado! Há tempos me pergunto e me envergonho desse estado de coisas… Saudade do tempo em que todos iam só para se divertir, em que encontrávamos todas as galeras, em que boate era pra dançar, show para ouvir e dançar, festa para curtir de todas as formas… Hoje, tudo é oportunidade para ostentar e tentar se mostrar melhor que o outro e se observarmos atentamente, poucos realmente se divertem, até porque se divertir implica se descabelar, sair da pose e se misturar…

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