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POR Andressa Valadares

Dando garfadas sem culpa

Colunistas / 08.07.15

(Trilha Sonora: Yann Tiersen – Le Banquet)

Quem me conhece sabe o quão valoroso é, para mim, um bom prato de comida. Contudo, em tempos de geração fitness e suco verde, parece que comer se tornou uma grande chaga. Não há garfada de carboidrato que não seja acompanhada por uma boa parcela de culpa.

Meu amigo, por favor, liberte-se!

Quem pensa que a comida só faz matar a fome está completamente enganado. Já dizia Rubem Alves: “comer é ser enfeitiçado”. É perceber que chegar ao céu não é possível apenas quando se morre, mas também quando sentimos na boca aquele tempero capaz de arrancar suspiros.

Quando foi a última vez que você se debruçou em um bom prato de costela sem pensar que – daqui alguns dias, meses ou anos – toda aquela lambança que você comeu retornará em forma de culotes? E que mal há em ter culotes?

Dia desses assisti a um filme no Netflix que me fez pensar o quanto essa ditadura do peso é danosa – e como ela pode abalar relações bem sólidas. O filme se chama Paraíso e conta a história de um casal que vive, de fato, um verdadeiro retrato da felicidade plena, até o momento em que ambos se mudam para outra cidade e se veem confrontados com o pior dos pecados capitais. Antes disso, Alfredo e Carmem eram felizes. Pareciam ser feitos um para o outro. Eram extremamente companheiros, dançavam como plumas ao vento e compartilhavam os mesmos hábitos e gostos. Se chamavam carinhosamente de Gordo e Gorda, até serem caçoados pelos seus “tamanhos”.

Senti a tristeza de Alfredo e Carmem como se fosse minha. Entrei em negação ao ver como no mundo contemporâneo o peso e a relação com a comida podem se tornar métricas capazes de dividir a humanidade entre vencedores e vencidos. Comecei a pensar em quantos Alfredos e Carmens não estão por aí encontrando alívio com o dedo indicador do refluxo gástrico.

Ressalto que este não é um manifesto contra quem opta por uma rotina de hábitos saudáveis. Longe disso. Mas, quando o preço desse saudável é o sofrimento e uma vida amarrada a padrões, que nos faz duvidar e por em risco até mesmo a mais sólida das relações… sei não, hein. Prefiro me debruçar em um bom prato de feijoada.

Então, moçoilas, vamos dar garfadas sem culpa. Vamos sentir prazer ao sentar à mesa e curar esse aperto no peito com uma boa barra de chocolates. Permita-se sentir fome de tudo. Fome de viver. Afinal, Fernando Pessoa já nos disse:

“(…) Come chocolates, pequena
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria (…)”  

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Andressa Valadares é jornalista, repórter do jornal O Estado do Maranhão e socióloga de botequim. Acredita no delírio cultural em massa de que a aparente posição do sol, relacionada com as constelações, na hora do seu nascimento, de alguma forma afeta sua personalidade.

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