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POR Andressa Valadares

Quando a liberdade está na intimidade

Colunistas / 01.07.15

(Trilha sonora: Lover, You Should’ve Come Over – Jeff Buckley)

Amor vem de amor, disse Guimarães Rosa:

“(…) Amor vem de amor. Vem de longe, vem no escuro, brota que nem mato que dispensa cuidado e cresce com a mais remota chuva. Vem de dentro e fundo e com urgência. Amor vem de amor. Que não cabe, mas assim mesmo a gente guarda. (…) Amor vem de amor. Vem de coisa que arrebata, vira chão, terra, cisco, resto, rastro, coisa para sempre varrida. É delicadeza viva forte violenta. Que faz doer, partir, deixar caído. Amor vem de amor. E dói bonito! Cheio de sabor”.

A gente quase nunca tem certeza do quão apaixonado estamos por uma pessoa até mergulharmos totalmente dentro da coisa e, quando chegamos nesse ponto, tudo se transforma. De todas as novidades que a jornada amorosa nos proporciona, sem dúvidas a melhor delas é descobrir o quanto a intimidade pode ser algo libertador.

Apesar de ser uma palavra de difícil definição, a intimidade possui uma gama de dimensões e vários níveis de intensidade. No amor, ela está para além de uma questão de pele, tato e afinidades do corpo. Tudo isso é adição a um universo muito maior de sensações.

Entre os casais, a existência de uma sintonia mental na maioria das vezes acentua o caráter de cumplicidade da relação. É olhar e saber. É olhar e sentir. É encontrar o seu porto sem precisar ir muito longe. É não precisar explicar. A intimidade psíquica por vezes nos encoraja, mesmo quando amar é cair sem saber onde se segurar.

Que o amor é o ridículo da vida, Cazuza já nos alertou. Contudo, no meio tempo entre o salto e tombo, é nesse ridículo que surge o riso fácil, a alma leve e a tão almejada sensação de liberdade. Liberdade essa compartilhada, mesmo quando poderíamos estar em tantos outros lugares.

A intimidade é algo tão singular que nos ajuda a construir espaços particulares de comunicação, um novo linguajar, determinados trejeitos. O cafona nunca pareceu algo tão divertido quando na relação a dois. Brincadeiras, provocações, apelidos e até mesmo a mudança no modo de falar dentro desse universo particular se unem em um espaço inacessível ao restante da humanidade.

Não existe nada melhor do que podermos escolher em que local – ou em quem – vamos prender nossas algemas. E a magia gostosa da intimidade nos faz diariamente esquecer onde colocamos nossas chaves. Quem ama vê nas miudezas razão suficiente para nunca mais se perder.

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Andressa Valadares é jornalista, repórter do jornal O Estado do Maranhão e socióloga de botequim. Acredita no delírio cultural em massa de que a aparente posição do sol, relacionada com as constelações, na hora do seu nascimento, de alguma forma afeta sua personalidade.

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