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POR Bárbara Hellen

Sem cicatrizes

Colunistas / 23.06.15

Há uns anos, perdi um cachorro. Ele morreu e eu fiquei arrasada. Foi um choque para mim, uma sensação de perda definitiva (como eu acreditava na época) que eu nunca havia sentido em toda minha vida. Quem tem cachorro sabe o quanto eles se tornam da família. Logan dormia no meu quarto, ficava ao meu lado enquanto eu falava no MSN (sim, MSN…) ou deitado perto do meu pé se a conversa se estendia por tempo demais. Quando chorava, ele também estava lá. Quando eu voltava de viagem, ele comemorava. Lembro que, no dia que ele morreu, uma amiga me perguntou como eu estava. A minha resposta foi simples e que descreveu exatamente o que estava sentindo: um emotion de um coração partido.

Depois isso, eu ganhei uma cadelinha da mesma raça. E ela também morreu. Tenho uma tremenda dificuldade em chorar e lembro que caí em lágrimas que assustaram até a minha mãe. Para mim, bastava: desistia de ter um cachorro meu. Desistia! Cachorro é só sofrimento, eu dizia para os mais próximos. Meu coração, partido em dois pedaços, agora estava partido em mil.

Hoje eu vejo que a minha perda não era tão grande, mas aquilo me machucou. E é essa nossa reação: se nos machucamos, nos fechamos. Perdemos uma pessoa querida, começamos a nos afastar de outras… E por aí vai.

Quando nos machucamos, perdemos o chão. Vivemos sensações que não são agradáveis e que, muitas vezes, são intensas demais. Prometemos, então, que jamais deixaremos que algo nos machuque. Afinal, é tão mais fácil ser frio, não se apaixonar novamente, ignorar aquilo ou alguém que nos incomoda. Fazemos de conta que nada aconteceu e passamos a fazer tatuagens por cima de nossas cicatrizes.

O mal de isso tudo é que passamos a ser outra pessoa. Deixamos de viver aqueles momentos únicos, ótimos e inesquecíveis para viver o mediano. Mas um mediano que não nos machuque, claro.

E aí ouvi uma música na rádio: “Quando fui ferido, vi tudo mudar das verdades que eu sabia (…) eu que tinha tudo, hoje estou mudo, estou mudado”. A verdade é que as feridas nos mudam. Nossos conceitos, nossas verdades, tudo aquilo que achamos que é para sempre vai embora a um piscar de olhos. Mas, devemos deixar que essas feridas nos mudem para pior ? Que em busca de uma racionalidade e até de uma autoproteção, deixemos de viver o melhor da vida?

Inevitavelmente, o melhor é tudo aquilo que acontece nos momentos mais inesperados e também nos momentos em que nos entregamos, sem medo, ao acaso e deixamos o nosso coração na mão do destino. Sim, mesmo correndo o risco que um dia ele caia no chão e se quebre em mil pedaços. Porque, no final, a dor passa e, com tantos tratamentos estéticos já disponíveis por aí, as cicatrizes também.

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Bárbara Hellen é jornalista. Troca qualquer coisa por uma boa conversa, um bom livro ou um sábado na praia. Ela admite: é tagarela, cheia das opiniões, perfeccionista e organizada. Adora conversar sobre política, mercado de trabalho e religião. Otimista, crê que tudo vale a pena se a alma não é pequena.

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6 respostas para “Sem cicatrizes”

  1. Adorei! Na dor e na perda aprendi algo que todos nós, humanos, compatilhamos: a dificuldade do ‘fim’.
    Temos medo de términios, da morte, da morte de quem gostamos, medo de mudar de cidade, de mudar de escola, de mudar até a cor do cabelo. Temos medo de fim de qualquer coisa que ta boa e até do que não tá, simplesmente porque não sabemos o que fazer com o FIM.
    Mas o fim também faz parte, o fim traz novos começos, novos olhares, novos aprendizados.

  2. (Respirei fundo).. Muito bom o texto! ??

  3. Muita coisa nessa vida machuca, mas só o amor destrói.

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