Foto Colunista

POR Bárbara Hellen

Instinto do Amor

Colunistas / 16.06.15

O filósofo Thomas Hobbes defendia que o homem nasce naturalmente mau e cabe a sociedade a responsabilidade de educá-lo e moldá-lo. Eu humildemente discordo. Nesse caso, eu concordo é com Rousseau. Para mim, o homem nasce bom e a sociedade que o corrompe, o faz agir de acordo com interesses duvidosos e muitas vezes desprendido do próximo.

Sempre temos o instinto de fazer o bem, mas sempre podamos esse instinto devido as nossas prioridades racionais, muitas vezes impostas pela sociedade. Chamo esse desejo de instinto do amor.

Um dia desses, por exemplo, estava andando na praia e vi um filhote de cachorro andando pela rua, bem magro, mas com aquela fofura típica de filhotes. Meu primeiro instinto foi natural: pensei em ajudá-lo, levando ao veterinário e quem sabe achando um dono para ele. Bem aí o instinto do amor agiu… Mas meu pensamento continuou correndo e trouxe a tona todos os compromissos que teria após aquela caminhada. Concluí: nossa, tenho muitos compromissos, não vou conseguir ajudar. Bem aí, em questão de segundos, neguei o meu instinto do amor.

Vivemos em um ambiente social onde os laços estão cada vez mais frágeis, esses laços que ligam eu, você e o outro. O outro é o desconhecido, tudo aquilo que não faz parte da nossa vida. Já é difícil amar quem está próximo e querendo te amar de volta, imagine o desconhecido!

O ato de amar deriva e se transforma em atos de bondade. Hoje, virou responsabilidade. E queremos evitar ao máximo qualquer responsabilidade, pois estamos atolados de coisas para fazer. Assim, jogamos aos outros nossas negações. Se eu te nego amor, é porque você não me dá amor também. Se eu deixo de te amar, a culpa é sua. Se eu não pratico o amor no meu dia a dia, é porque a sociedade me ocupou com tarefas demais, então a culpa é do meu chefe.

Já pensou se deixássemos de negar todos os nossos instintos de amor? Quantas pessoas e animais seriam ajudados? Quantas brigas seriam evitadas? Já imaginou o tempo que não ia ser desperdiçado com tudo aquilo que nada significará? E o tanto de relacionamentos significativos que teríamos? E a quantidade de lembranças de amor para recordar?

Cada dia que passa questiono minhas prioridades e observo, nas escolhas que faço, o quanto estou negando esse tal do instinto do amor. Tenho pensado muito se todos esses compromissos inadiáveis serão capazes de encher minha alma do orgulho despretensioso. Um sentimento que aparece somente em atitudes minhas que a maioria desconhece.  Quando, por exemplo, dou aquele apoio quando uma amiga precisa de somente palavras de carinho, quando percebo fiz diferença na vida de alguém, quando falo a palavra exata de incentivo que aquela pessoa precisa ouvir. Ou quando me dou ao outro e, mesmo sem retorno qualquer, percebo que fui peça fundamental nas suas conquistas.

Deixei de transformar o ato de amar em uma responsabilidade. O ato de dar carinho como uma responsabilidade. O ato de ser humano, bondoso, caridoso, como uma responsabilidade. Tem que vir de mim, do fundo do meu ser, tem que ser natural, verdadeiro e totalmente despretensioso.

É ver um carro atolado em meio a uma chuva torrencial e não pensar duas vezes em ajudar, de qualquer forma, nem que seja somente segurando o volante enquanto os outros fazem o esforço em empurrar. E chegar ao próximo compromisso ensopada, mas com o orgulho despretensioso de ter feito o bem. De ter praticado o amor. Talvez o amor praticado com inconsciência seja o verdadeiro amor, aquele que vem da alma, do nosso instinto mais humano e mais animal. Para mim, é a chave da mudança que tanto desejamos na sociedade: quando todo mundo praticar esse estilo de amar teremos um mundo repleto de fraternidade e devoção pelo bem.

_________

Bárbara Hellen é jornalista. Troca qualquer coisa por uma boa conversa, um bom livro ou um sábado na praia. Ela admite: é tagarela, cheia das opiniões, perfeccionista e organizada. Adora conversar sobre política, mercado de trabalho e religião. Otimista, crê que tudo vale a pena se a alma não é pequena.

_____________________________________________________________

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do Site BH. Possibilitamos que o leitor conheça opiniões diversificadas sobre os assuntos em pauta nas mídias sociais. Sempre iremos expor visões diferentes para que o leitor se questione, questione o mundo ao seu redor e, principalmente, corra do senso comum. Quer ver o seu texto por aqui? Mande para redacaositebh@gmail.com

Seja o primeiro a curtir.

Uma resposta para “Instinto do Amor”

  1. Perfeito! Me orgulho de me dar ao luxo de parar minha vida para seguir meus instintos! Sou chamada de louca, sou; sou criticada até pelos próximos, sou! Mas sigo minha essência e acalmo meu coração… não sou e nem quero ser indiferente!

Deixe uma resposta

*

ARQUIVOS

BH NO INSTAGRAM

FOLLOW @BARBARAHELLEN

BH NO FACEBOOK

www.000webhost.com