Foto Colunista

POR Márcio Sallem

Um passo em direção à mudança

Colunas / 18.05.15

Quisera houvesse no sangue brasileiro o mesmo inconformismo francês que destronou reis e, até os dias atuais, participa de forma ativa nas mudanças sociopolíticas na terra de Jean-Jacques Rousseau. A partir dos ensinamentos do filósofo, defensor da democracia direta e participativa, o brasileiro tem muito a aprender, a começar com a mudança no perfil: de comentarista de sofá e repetidor das “verdades absolutas” noticiadas nas manchetes dos grandes veículos de comunicação, ao cidadão consciente de que o espírito democrático existe dentro de si, como um gigante sempre em alerta.

Manifestar-se é um passo em direção a essa salutar mudança: Diretas Já!, Caras-Pintadas, Junho de 2013, independente de como ou onde se originaram, apoiaram-se no direito legítimo do cidadão de fiscalizar e cobrar de seus representantes eleitos, apresentar políticas e propostas, exigir o respeito à coisa pública e exercer o poder de que emana, ao menos em teoria, em idêntica intensidade, das ruas das favelas aos bairros luxuosos. Entretanto, o passo deve ser consciente e seguro, sob pena de regredirmos como sociedade.

Em 15 de março e 12 de abril deste ano, assistimos a manifestações ou “manifestações” de pautas indefinidas e até esdrúxulas, apesar de todos exigirem o impeachment da presidente recém-eleita. Durante os pronunciamentos oficiais dela, “panelaços” reverberavam entre os prédios das principais capitais, em um gesto semelhante ao das crianças que tapam os ouvidos e gritam alto enquanto seus pais falam sozinhos. Agir como crianças birrentas em uma caminhada na praia ao lado da família e dos amigos nem pressiona o governo, nem ajuda no amadurecimento de nossa jovem democracia.

Antes de vestir a sua camisa da seleção brasileira que, por mais que fique bonita na selfie, simboliza uma contradição irônica, seria essencial questionar o que o tirou cedo da cama em um domingo: o aumento da inflação, dos juros e do câmbio, as promessas de campanha rasgadas ou a corrupção na Petrobrás? Ou seriam “forças ocultas” atiçadas pela velha oposição, que interpreta a mau perdedora, e reforçadas pela imprensa, a quem os petistas chamariam de “mídia golpista” e os tucanos abraçam incontinenti?

Comece a perguntar-se: por que a maior emissora de televisão deu cobertura ampla e irrestrita ao movimento, mas não repetiu a mesma postura na greve dos professores paranaenses? Por que os parlamentares que instigaram o povo a ir às ruas decidiram assistir de camarote, no conforto de seus apartamentos? Quem são os organizadores dos movimentos, qual sua filiação política e ideológica deles e o que pretendem em suas desorganizadas pautas?

Por mais legítimo que seja o direito de manifestar-se, entenda que o senão não é qual bandeira você hasteia, mas para quem ela se agita: se para o Brasil ou para terceiros. A democracia à lá francesa nasce e ecoa nas ruas, porém não sem antes entender que a maior manifestação do cidadão é o voto.

Que pena que, nos domingos de eleição, a grande maioria dos descontentes esteja enfadada demais para ir votar com consciência e espírito democrático.

_____________

Márcio Sallem é mestre em ciência da computação, bacharel (quase) em direito, Auditor-Fiscal da Receita Federal, crítico de cinema e leitor desde a época em que não havia iPhones e redes sociais, adora escrever sobre invariavelmente tudo: política, economia, artes e fofocas.

_____________________________________________________________

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do Site BH. Possibilitamos que o leitor conheça opiniões diversificadas sobre os assuntos em pauta nas mídias sociais. Sempre iremos expor visões diferentes para que o leitor se questione, questione o mundo ao seu redor e, principalmente, corra do senso comum. Quer ver o seu texto por aqui? Mande para redacaositebh@gmail.com

Seja o primeiro a curtir.

Deixe uma resposta

*

ARQUIVOS

BH NO INSTAGRAM

FOLLOW @BARBARAHELLEN

BH NO FACEBOOK

www.000webhost.com