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POR Samuel Melo

O Eu e o Outro

Colunas / 18.05.15

Nas entrelinhas de qualquer discussão sobre protestos estão posicionamentos políticos e éticos. Pode-se discutir a colisão entre a privacidade daquele que não quer se sentir político e a liberdade de expressão daquele que luta por direitos. Ou analisar restrições para as manifestações no que se refere à destruição de patrimônio público, por exemplo. Mas tudo isso é acessório quando simplesmente se questiona a necessidade de protestar. Tal indagação parece estar mais ligada a questões humanas e de convivência social do que se pode imaginar, e esse será o foco aqui.

É curioso que se ponha em cheque o protesto quando esse é um dos instintos mais primitivos do ser humano; tire o brinquedo da mão de seu filho sem razão aparente e espere: se ele ficar calado é melhor se preocupar. O que me impressiona é a aversão que alguns demonstram quando se deparam com atitudes de luta por direitos, ainda mais em um país que se diz Estado Democrático. Não é um bom sintoma para uma democracia quando se observa a polícia agir com a violência revoltante vista nos protestos dos professores em Curitiba no final de abril. Afaste do Brasil esse cálice.

Nas redes sociais essa configuração desconcertante é também percebida. Nos dias em que a pauta política do país esteja efervescida, ao ler a timeline do facebook tenho a impressão de estar numa sala fechada com um monte de gente gritando para as paredes suas opiniões. É como uma casa dos gritos. Sem falar quando um discurso discriminatório aparece camuflado de liberdade de expressão, aí é um ultraje maior ainda.

Voltando à metáfora da casa dos gritos. A rotina muda quando alguém fala alguma coisa que a maioria da sala ouve só porque não tinha nada para falar sobre o assunto. E então a plateia se divide em dois grupos: aqueles que concordam chegam perto de quem gritou e dão um sinal de legal com o dedo polegar (o que, aliás, desencadeia um prazer desconcertante demais para o autor admitir). Já aqueles que discordam fingem não ter lido ou escrevem um texto nos comentários demonstrando sua insatisfação, e em algum momento o diálogo tomará características de ataque pessoal. Nada muito construtivo parece sair desse fenômeno moderno.

Será assim então? Cada um protestando no seu canto, apoiado por aqueles que concordam e execrado por aqueles que discordam? Isso não é comunicação, é o Espetáculo do desentendimento e da histeria pública.

A sociedade é reverberante e fluida, o fluxo de comunicação e disseminação de ideias é intenso. E isso não é motivo para preocupação, pelo contrário, é um bom sintoma. A política em sua melhor forma é feita no dia a dia do cidadão, nos discursos que emprega e na ética que instala em suas relações pessoais e profissionais. E o problema começa aí, muita gente por não entender ou por negar essa realidade acaba não aceitando a luta por direitos. Essa parte da sociedade parece não compreender os limites do direito ao protesto talvez mais por questões de convivência humana mal resolvidas no que se refere ao outro do que qualquer outra coisa.

E quem é esse “outro”? No exato momento que existir a discordância – aquele estranhamento inconveniente e angustiante que bate na boca do estômago – instantaneamente esse será o seu outro. E geralmente têm se respondido com intolerância nesses casos, lembra até o fascismo. O intolerante só é intolerante porque também não se ouve; deve ser realmente muito difícil compreender o que está acontecendo no mundo e na sociedade quando não se compreende nem mesmo o que está ali escondido dentro de si. Escutar o outro com sinceridade e despido de preconceitos é um exercício comunicativo interessante e construtivo, faça o teste.

É uma pena não entender que respeitar o direito ao protesto também é preservar seu próprio interesse de um dia precisar protestar. Parece simples e até bobo, mas aqui mora um ponto chave dessa coisa toda: invocando a liberdade de expressão todo mundo quer ser ouvido sem restrições – nas ruas ou nas redes sociais – até o momento que se precise ouvir o outro sem restrições também. E esse outro que me refiro aqui não são seus amigos mais próximos que dividem os mesmos valores, ou seu companheiro de religião, ou qualquer pessoa que aparentemente enxerga e se envolve com o mundo da mesma forma que você.

Quero terminar avisando que você também é esse outro. Sinto muito trazer a realidade desnuda. Funciona mais ou menos da seguinte forma: se você se incomoda e é intolerante com alguém ou algum grupo que esta protestando por direitos, isso significa que algo em você se sente identificado e fica assustado demais para admitir isso. Então a resposta que se tem adotado nesses casos é a do ódio ou a do descrédito. Não consigo decidir qual dessas é pior.

Mesmo com todos os abismos que tu relutas em criar para se diferenciar deste, ainda que toda a humanidade continue a insistir nessa segregação por características sociais sólidas. Não, não é cada um no seu quadrado. Suponho que já está bem claro que assim não vai funcionar. Se quiseres preservar a tua condição humana e dos que acreditas serem teus, melhor começar a encarar a realidade e respeitar os que não são. Proteste ou não proteste, mas deixe protestar quem precisa de direitos. Ora, para que te deixem ser: deixa que sejam também. Deixa a sociedade reverberar, é lindo de ver.

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Samuel Melo pediu para ser definido como humano, explicou que depois do que escreveu nenhuma outra coisa pareceu ser mais adequada ou importante.

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4 respostas para “O Eu e o Outro”

  1. Interessante a abordagem, exatamente porque todos nós, realmente, queremos o eco de nossos pensamentos – daí os conflitos e desrespeitos! Para sermos bons oradores/pensadores, devemos antes de tudo, ser bons ouvintes/leitores!

  2. Que texto interessante. Convida a refletir sobre a percepção do outro – o conflito, o ser humano – no processo de atitude, do gesto democrático de reivindicar.

  3. Geralmente quando protestamos (faço questão de me incluir) o que queremos realmente ouvir é o eco de nossos próprios entendimentos. Estamos muito pouco preparados para posições diferentes, por isso o escudo da intolerância soa atrativo. O humano Samuel como sempre um maestro com as palavras! Parabéns meu amigo! Acho que o texto reflete bem o propósito do site, ouvir e ser ouvido com tolerância!

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