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POR Thiago Viana

A religião e suas intermitências na juventude

Colunas / 11.05.15

No tema “religião e juventude”, de início, questiona-se em que medida os jovens estariam, de fato, de volta ao seio das igrejas e quais igrejas ou religiões seriam estas.

O Censo 2010, o critério “idade”, no aspecto religioso, apresenta os dados mais curiosos. Como observa o sociólogo e professor Pedro Ribeiro de Oliveira (“A desafeição religiosa de jovens e adolescentes”, 05/07/2012, IHU Online), comparando os dados de 2000 e 2010, percebemos que em 2000, os católicos de 0 a 29 anos eram em maior número quando comparados a 2010, isto é, as crianças e os jovens estão deixando de ser católicos e, ainda, em 2010 há mais católicos com idade igual ou acima de 30 anos. Se tal tendência se mantiver, sustenta o sociólogo, em 2020, a diminuição será ainda mais drástica. Esse processo se observa também no protestantismo clássico, mas não se aplica às igrejas pentecostais, neopentecostais e ao espiritismo.

Outra novidade que merece destaque é o crescimento dos sem religião (ateus, agnósticos e pessoas, digamos assim, desencantadas com as instituições religiosas tradicionais): passaram de quase 12,5 milhões (7,3%), em 2000, para os 15 milhões em 2010 (8,0%), dentre os quais 5 milhões e 200 mil são jovens de 15 a 29 anos. E mais: 15,3 mil têm mais de uma religião, dos quais a maioria é de jovens.

Na reportagem “Ateu, graças a Deus” (Estado do Maranhão, 22/02/2013), alguns jovens “saem do armário” do ateísmo. O jovem Alexandre Dutra, então com 16 anos, declarou: “Eu acho que cada pessoa deve procurar um local em que se sinta bem. Um local onde ela se sinta confortável consigo. Eu me sinto confortável com o ateísmo e não tento mudar a cabeça de ninguém. Por isso, apenas peço o mesmo”.

Esses dados suscitam algumas questões.

Primeiro, qual o lugar da religião no nosso tempo de (pós)modernidade líquida, em que a tradição perdeu o monopólio de explicação do mundo? Hoje o espaço antes ocupado pela igreja/religião é disputado com vários outros atores e instituições sociais e políticos. Temas como Estado laico, fundamentalismo religioso, reflorescimento da religião são alguns aspectos desse complexo processo que merecem ser debatidos em um profundo e franco diálogo.

Segundo, observam-se três tipos básicos nos jovens sem religião: ateus, agnósticos e céticos, que empunham a bandeira do secularismo; os que estão em “desafeição religiosa”, ou seja, passaram pelo rompimento do laço afetivo com a religião ou se tornaram descrentes com um ou mais dogmas e se afastaram das práticas rituais; os sincréticos, que afirmaram acreditar em entidades e categorias de várias religiões (“energia”, astrologia, orixás etc.).

Por fim, em terceiro lugar, as igrejas/religiões, em muitos casos, sobretudo nas periferias, carentes de políticas públicas básicas, oferecem mais um lócus de sociabilidade para os jovens, além da família e escola. Ora, igrejas, templos, terreiros, centros espíritas etc., além de locais de culto, representam um espaço onde jovens podem fazer novos amigos, desfrutar de opções de lazer etc. Ademais também são espaços onde o jovem pode buscar apoio material e afetivo frente aos infortúnios da vida, tais como a falta de segurança, acesso à educação de qualidade, saúde e ao mercado de trabalho, drogas ilícitas etc.

Quer prevaleçam, numericamente, ou não os jovens que se voltam para as igrejas e/ou religiões, o importante é que essa nova geração tem o dever de cultivar e difundir o valor da liberdade religiosa e de consciência para construir um mundo mais fraterno e justo.

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Thiago G. Viana, advogado, presidente da Comissão da Diversidade Sexual – OAB/MA e diretor jurídico da Liga Humanista Secular do Brasil (LiHS).

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